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litbrasileira

Todos nós já lemos algum livro de algum escritor brasileiro. Ou, pelo menos, é o que espera, uma vez que todo o curso de literatura do ensino médio se baseia nisso. O que me deixa um pouco incomodada é que, uma vez lidos os clássicos da Clarice, Machadão, Guimarães, etc. parece que mesmo as pessoas que gostam muito de ler esquecem que existem autores brasileiros por aí e, especialmente, não se interessam em ler a literatura brasileira contemporânea.

O que mais me alarmou e me motivou a escrever esse texto foi o fato de que entre os 100 mais desejados do Skoob, nenhum é de autor brasileiro.

Então, o que acontece? Por que o brasileiro é um povo estranho que não consome a própria literatura? Especialmente, por que o brasileiro só conhece os clássicos da literatura brasileira e tem interesse na literatura sendo feita aqui e agora, por autores contemporâneos?

“Há um sério problema de falta de sintonia entre o grande público e os escritores brasileiros” (Nelson de Oliveira)

Andei pensando sobre isso e acho que são dois fatores:

1) Falta de divulgação – Tirando alguns autores que já são conhecidos, acho que são muito poucos os esforços feitos pelas editoras para divulgar autores brasileiros. Aí resta descobrir o que é a causa e o que é a consequência: brasileiros não leem autores brasileiros porque as editoras não divulgam, ou as editoras não divulgam porque os brasileiros não leem autores brasileiros? Acho difícil responder. Mas acredito que deveria, sim, existir um esforço maior por parte das editoras em promover e, muitas vezes, apresentar nossos autores ao público leitor. Muitas vezes, quem gosta de livro nem ao menos sabe o que está sendo lançado e de quem é qual livro. Acho que ajudaria, e muito, se as editoras se concentrassem nisso.

2) Trauma da escola – Ninguém vai amar literatura brasileira lendo, aos 14 ou 15 anos de idade, Guimarães Rosa e Clarice Lispector. Ou, pelo menos, a maioria dos adolescentes vai acabar se sentindo inibido, entediado e, por fim, traumatizado, se lhe for entregue um desses livros extremamente densos quando são tão novos e tem tão pouca experiência (tanto de vida, quanto de leitura). Aí cria-se uma barreira contra a literatura brasileira e, mesmo que essas pessoas descubram os prazeres de ler depois de um tempo, é muito provável que não irão procurar autores brasileiros se não tiverem um bom motivo para isso, já que as experiências que tiveram com literatura brasileira anteriormente não foram nada agradáveis.

Em terceiro lugar, discordo tanto de escritores que sugerem privilegiar os clássicos, quanto daqueles que acreditam que não se faz coisa que preste em literatura ou filosofia no Brasil. Escritor brasileiro vivo tem que ler, sim, bastante escritor brasileiro (e estrangeiro) vivo. Leitores eruditos, por seu turno, não sabem o que estão perdendo quando desprezam a literatura contemporânea nacional. Tem muita coisa boa sendo feita por aqui. Arrisco ir além. Existem vários escritores brasileiros que dão banho nos queridinhos de fora do momento (Philip Roth, Ian MacEwan, etc, a lista é longa). (Flávio Paranhos)

Já li também gente falando que existe, atualmente, uma falta de conexão entre autores e público, mas eu realmente não sei se acredito nisso. Acho que o público tem total liberdade para escolher o que quer ler, mas acho também que os autores não podem cair na armadilha de tentar escrever o que acham que o público quer ler. O argumento dos preços dos livros não me convence, porque livros não são tão caros assim e existem bibliotecas, sebos e edições econômicas. Ah, claro, e tem aquelas pessoas que acreditam que os únicos livros que prestam são os clássicos e que não existe nada de bom sendo feito hoje, o que é besteira tão gigantesca que nem vale a pena perder tempo comentando.

Ainda estão pensando sobre o tema, mas acho que é necessário descobrir o que acontece para poder reverter a situação. A literatura é umas artes que mais tem força para expressar sentimentos e sensações coletivas, nos dá voz e nos desafia a enxergar o mundo de outras maneiras. Não estou aqui, de maneira alguma, falando que é ruim ler autores estrangeiros (seria ridículo eu falar isso, porque leio muitos) ou clássicos (mais ridículo ainda seria afirmar isso!), mas só dizendo que seria muito bom se os leitores brasileiros do século XXI começassem a ler autores brasileiros do século XXI. Um livro só se completa na mão do leitor, e um autor é alguém querendo dialogar, então vamos continuar a conversa.

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