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Uma das obras mais reais que li nos últimos tempos foi o clássico do Henry James Pelos olhos de Maisie. O livro conta a história da personagem título, uma menina que se vê sendo usada como arma durante a separação dos pais.

A criança foi dividida em duas, e as porções foram entregues ao querelantes de modo imparcial. Cada um ficaria com a filha, alternadamente, por períodos de seis meses; assim, ela passaria metade do ano com o pai, metade com a mãe.

Quando seus pais, Beale e Ida Farange, resolvem se divorciar, a guarda de Maisie se torna uma arma usada pelos dois para machucar um ao outro. O juiz decide, então, que ela deve passar seis meses do ano com o pai e seis meses do ano com a mãe. Um arranjo que a coloca bem no meio do fogo cruzado não só os pais, mas também de seus novos cônjuges, que de início parecem figuras mais bem preparadas para cuidar de Maisie, mas que talvez não sejam lá muito diferentes de seus pais biológicos.

O que mais me tocou e impressionou nesse livro foi que tudo é visto sob o ponto de vista de Maisie, uma criança, e, por isso, nem sempre ela tem todas as informações necessárias para entender a situação em que foi obrigada a viver mas, mesmo assim, acaba sentindo e compreendendo mais do que devia e, por isso, se vê obrigada a crescer mais depressa do que deveria.

“Pobre criatura!”, exclamou por fim; e estas palavras foram um epitáfio para o túmulo da infância de Maisie. Ela foi abandonada a seu destino. Estava claro para qualquer observador que o único vínculo que a unia a cada um de seus pais era o fato lamentável de ser ela um veículo fácil para o rancor deles, uma xícara de porcelana, pequena mas funda, boa para misturar ácidos cortantes. Queriam-na não pelo bem que pudessem fazer a ela, mas pelo mal que, com a ajuda inconsciente dela, cada um poderia fazer ao outro.

A história foi escrita em 1897, mas é completamente atemporal. Eu acho que essa é a parte mais bonita: Henry James conseguiu passar para seu texto os medos, as inseguranças, as esperanças e as alegrias de ser criança; e isso é universal. Maisie é uma personagem complexa e completa, que não tem como escapar dos adultos irresponsáveis ao seu redor e seus jogos de poder e disputa, e muitas vezes parece mais centrada que todos eles. Primeiro dividida ao meio, depois dividida em quatro – ou cinco -, ela não deveria precisar fazer o papel de bússola moral para os adultos ao seu redor, afinal, ela é só uma criança! Mas Maisie não tem outra alternativa, senão ‘cuidar’ dos adultos ao seu redor para que, assim, eles cuidem dela.

E mais triste é saber que são muitas as crianças numa posição parecida e que são obrigadas a abandonar suas infâncias e acelerar seu crescimento para garantir a própria sobrevivência.

Livro: Pelos olhos de Maisie (What Maisie Knew)
Autora: Henry James
Editora: Penguin –  Companhia das Letras

Extras:

Eu acho que uma prova de que o tema é ainda tão relevante hoje em dia é o fato de que no ano passado foi lançada uma adaptação cinematográfica (ainda não saiu aqui) em que a história foi transportada para os dias atuais. Estou bastante animada para ver!

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