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Todos os escritores são vaidosos, egocêntricos e ociosos, e bem no fundo de seus motivos jaz um mistério. Escrever um livro é uma luta horrível e exaustiva, como um prolongado ataque de uma enfermidade dolorosa. Ninguém jamais se incumbiria de tal coisa se não fosse impelido por um demônio ao qual não se pode resistir nem entender.

Hoje fazem 63 anos da morte de um dos meus escritores favoritos: George Orwell. Todo mundo pelo menos já ouviu falar das obras mais famosas dele, A Revolução dos Bichos 1984. Na pior das hipóteses, você também pode lembrar dele como o verdadeiro pai do Big Brother, o Grande Irmão… mas não esse aí da televisão, mas o verdadeiro! Pouca gente sabe, mas o nome dele, na verdade, era Eric Arthur Blair e, antes de se tornar romancista, ele trabalhou muito tempo com o jornalismo e, inclusive, alguns de seus textos são precursores do que viria a ser chamado mais tarde de new jornalism ou jornalismo gonzo.

Jornalismo é publicar aquilo que alguém não quer que se publique. Todo o resto é publicidade.

Ainda que tenha sido só como escritor de ficção que Orwell ganhou o merecido reconhecimento, ele é um daqueles escritores cuja obra de ficção e a obra de não-ficção (e também sua própria biografia) andam de mãos dadas. Se não tivesse crescido na Índia tomada pelo Império Britânico, vivido na extrema pobreza (experiência relatada no livro Na pior em País e Londres, um dos meus favoritos dele) ou lutado na guerra civil espanhola (Lutando na Espanha) e conhecido tudo o que conheceu sobre a sociedade, seria muito pouco provável que ele tivesse sido capaz de escrever obras tão socialmente relevantes quanto Dias na Birmânia, A Flor da Inglaterra e, claro, suas obras mais conhecidas, A Revolução dos Bichos e 1984.

Existe algo de comum em toda a obra de Orwell, seja ficção ou não-ficção, que é uma consciência profunda das injustiças sociais e uma gigantesca oposição ao totalitarismo. Além disso, sua escrita é sempre clara, objetiva, sarcástica e apaixonada.

Se você quer uma imagem do futuro, imagine uma bota prensando um rosto humano para sempre.

Com certeza, 1984 está entre os mais importantes livros do século XX. Por coincidência, também está entre os mais importantes livros da minha vida. Na verdade, eu coloco as duas Alices do Carroll, O Sol É Para Todos da Harper Lee e 1984 numa categoria especial de livros que mudaram a minha vida. No caso do 1984, eu li quando era bem nova e foi como se o Orwell abrisse a minha cabeça e tirasse de lá de dentro um bando de ideias que foram enfiadas lá sem que eu percebesse, e aí tudo ficou mais claro e eu consegui voltar a pensar sozinha.

E as mudanças que o Orwell provocou em mim foram, ainda bem, também provocadas no mundo. Ou, pelo menos, o mundo começou a ficar ciente do que ele estava tentando avisar. Ele nos disse que, em breve, viveríamos num mundo em que a privacidade seria jogada foram em nome de um controle maquiado como segurança. Ele nos contou que quem controla o passado, controla o futuro. Ele nos avisou que a nossa individualidade seria destruída aos poucos e que pensar diferente, pensar em mudanças e progresso, seria visto como um crime de pensamento. Ele já tinha dito tudo isso, e aqui estamos.

É claro que George Orwell não previa o futuro, ninguém pode fazer isso, mas é impressionante como ele conseguiu enxergar a sociedade em que vivia e projetar quais poderiam ser seus próximos passos. Uma pena que muita gente parece achar que o livro não é uma distopia a ser evitada, mas um manual de instruções.

Sessenta e três anos depois de sua morte, nós ainda estamos aqui, George Orwell. E o Grande Irmão ainda está nos observando.

Ps: eu coloquei no meu blog um texto que escrevi na época da faculdade inspirada pelo livro 1984, caso alguém queria ler: Eu amava o Grande Irmão.

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