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E, então, eu fiz um filme. E outro. E outro.

E, agora, preciso ir fazer outro.

Eu gostei bastante daquele primeiro livro do Cory Doctorow publicado aqui no Brasil, o Pequeno Irmão, por isso quis ler esse novo, Cinema Pirata. Uma outra razão é que o Doctorow é bastante conhecido no meio de tecnologia e internet por sua batalha contra as leis de direitos autorais e a favor do compartilhamento de arquivos (tanto que os livros dele, por exemplo, estão todos de graça em seu site para quem quiser baixar) e esse livro dele fala sobre o tema da pirataria. Pensei: melhor ler o Doctorow falando sobre isso que qualquer outra pessoa.

Resuminho: a obra conta a história de Trent, um adolescente que vive num futuro não muito distante onde as pessoas são punidas se pegas fazendo downloads ilegais. Isso acontece com ele, claro, e aí toda a sua família é condenada a ficar sem internet por um ano. Morrendo de vergonha e desesperado por ter causado isso, Trent foge de casa e vai para Londres, onde descobre que a situação envolvendo pirataria e direitos autorais só está piorando.

Mas você sabia que noventa por cento dos direitos autorais de filmes em toda a história do planeta pertencem a cinco estúdios? E que oito companhias controlam oitenta e cinco por cento de rádios, emissoras de TV, filmes, jornais, publicações, livros e internet do mundo? Então, se trabalhasse para uma dessas companhias, provavelmente poderia usar todos os clipes que decupa. Vejo coisas assim o tempo todo, anúncios idiotas para vender Coca-Cola ou Nike, ou qualquer coisa. Essas empresas detêm nossa cultura e podem fazer o que quiserem com ela. O resto de nós precisa infringir a lei para fazer o que eles fazem direto. Mas a cultura é de todo mundo… Essa é a intenção, não é? Depois que publica no mundo, é do mundo, é parte das histórias que contamos uns aos outros para dar sentido à vida.

Trent é um tipo de cineasta da internet 2.0: ele baixa diferentes filmes, comerciais, clipes, etc. e os edita de modo a criar a sua própria obra. Não ganha dinheiro com isso, claro, e não quer ganhar nada. A única coisa que ele quer é o direito de compartilhar sua criatividade com as outras pessoas sem ser preso ou considerado um ladrão. A mesma coisa acontece com seus amigos. Mas a coisa vai ficando cada vez mais feia, ao ponto de que adolescentes pegos fazendo downloads ilegais começam a ir para a cadeia ou são condenados a pagar multas milionárias para as empresas donas das obras. Fica óbvio que tudo só pode ir cada vez mais ladeira abaixo, então Trent e seu grupo de amigos piratas resolvem iniciar uma guerra contra a Indústria do Entretenimento e lutar pela cultura compartilhada.

Pensei que deveria ser legal ser alguém como ele – alguém que podia simplesmente decidir que estava certo, o mundo estava errado, e lutar bravamente para consertar as coisas. Aquela era a loucura da família de 26: acreditavam que podiam mesmo mudar as coisas. Acreditavam que eu podia mudar as coisas. Eu só desejava acreditar também.

A discussão do livro é muito importante e extremamente atual. O autor tem muita propriedade e você percebe que ele sabe do que está falando e que tem ideias muito bem resolvidas. Tudo é um exagero do que estamos vivendo e, por isso, boa parte dos argumentos podem muito bem ser utilizados em discussões como aquela do SOPA no ano passado e tantas outras que com certeza irão surgir no futuro. Mas, talvez por conta desse foco, o livro se perca um pouco na parte de personagens e história mesmo. Os personagens são bacaninhas e a história é interessante, mas em nenhum momento ele aprofunda tanto quando o faz com o tema de direitos autorais, pirataria, etc.

Ou seja: é um livro sobre um tema, que propõe uma discussão (extremamente relevante, aliás). Não é um livro sobre personagens, a falta de profundidade começa a deixar todos um tanto genéricos (o que não acontecia no Pequeno Irmão) e, por isso, fiquei um tanto decepcionada. Mas, no geral, é um livro bacana sobre um tema extremamente atual e que ainda vai ser muito debatido nos próximos anos.

Livro: Cinema Pirata (Pirate Cinema)
Autor: Cory Doctorow
Editora: Galera Record (2012)

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