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“Se a senhora está interessada em saber”, interrompeu a Dama de Honra, olhando para mim, “eu simplesmente odeio esse programa. Odeio crianças precoces. Se algum dia tivesse um filho que…” (J.D. Salinger em ‘Carpinteiros, Levantem Bem Alto a Cumeeira’)

Todo mundo conhece o recluso escritor americano J.D. Salinger pelo seu único romance publicado, o famoso O Apanhador No Campo De Centeio. O personagem mais famoso dele é, com certeza, o protagonista dessa história: Holden Caulfield, jovem de 16 anos cheio de conflitos com a vida e a sociedade, se escondendo do mundo adulto atrás de um chapéu de caça vermelho (escrevi sobre ele aqui). O engraçado dessa história é que, pelo menos entre os trabalhos publicados do Salinger (e diz a lenda que ele tem 15 romances escritos que não quis publicar), os personagens sobre os quais mais escreveu foram os integrantes da família Glass.

 

A família Glass é o grupo de personagens mais recorrente em toda a obra do Salinger. Vivem em Nova York, são excêntricos e muitos ligados ao mundo das artes. O pai e a mãe, Les e Bessie Glass, eram atores de teatro quando jovens e passaram essa herança cultural para seus sete filhos: Seymour, Web (Buddy), Beatrice (Boo Boo), Walter (Walt), Waker, Zachary (Zooey) e Frances (Franny).

Todas as crianças Glass são precoces, pequenos gênios, e viraram celebridades infantis ao participar de um programa de rádio chamado ‘It’s a Wise Child’, em que mostravam sua inteligência debatendo diversos assuntos e respondendo perguntas mandadas por ouvintes. Esse ponto é muito importante na vida dos Glasses, porque marca um auge na trajetória de cada um deles e, se o ponto alto do seu caminho foi quando você era uma criança prodígio, o que resta fazer depois de crescido? É isso que nenhum dos Glasses parece saber responder.

Uma diferença de idades de quase dezoito anos entre o primogênito da família Glass, Seymour, e a caçula, Franny, tinha ajudado consideravelmente a família a manter uma espécie de arranjo dinástico aos microfones do “Menino Esperto”. (…) Apesar de todos os hiatos e diferenças de épocas entre os períodos áureos de cada uma delas no programa, pode-se afirmar (com raras e pouco importantes reservas) que todas as sete crianças conseguiram responder pelo éter a um prodigioso número de perguntas letalmente eruditas ou, alternadamente, capciosas – enviadas pelos ouvintes – com uma desenvoltura, uma graça, uma originalidade que eram consideradas caso único no rádio. (J.D. Salinger em ‘Zooey’)

Espalhados por contos e novelas de J.D. Salinger, conhecemos os Glasses quase que inteiramente pelo ponto de vista do segundo filho, Buddy Glass, que relata alguns episódios vividos pela família em diferentes contos e novelas (são poucas as histórias dos Glasses que possuem um narrador ‘neutro’). O personagem Buddy Glass é, muitas vezes, apontado como o alter-ego do Salinger, já que além de escritor e recluso, o autor até mesmo sugeriu na novela Seymour: Uma Apresentação que Buddy é autor de  O Apanhador No Campo de Centeio.

 

Talvez por ser objeto de interesse e adoração de Buddy, ou talvez por ser o primogênito e ter moldado todo os seus irmãos, Seymour é o nome mais recorrente em todos os contos da família Glass. Considerado o mais inteligente dos filhos, era poeta e virou professor universitário aos 20 anos de idade, além de ser visto como uma espécie de ídolo e guru espiritual de toda a família. Ao mesmo tempo, Seymour não consegue se conectar com o mundo e é tão incapaz de cuidar de sua própria vida que resolve adiar seu casamento por estar ‘feliz demais para casar’, só para depois se suicidar em plena Lua de Mel (mostrado no lindo conto Um dia ideal para os peixes-banana).

Buddy, escritor por religião, era o mais próximo de Seymour. Cresceu admirando o irmão, serviu ao exército e lutou na Guerra ao lado dele e, adulto, tenta mostrar, através de seus textos, como Seymour era especial. A novela Seymour: Uma apresentação é uma complexa construção de personagem e da relação dos dois irmãos, tão intensa que Buddy não consegue encontrar frases capazes de descrevê-la.

 

Os filhos seguintes, Boo Boo e os gêmeos, Walt e Waker, não aparecem muito na obra de Salinger. Boo Boo tem um conto só para ela e um de seus filhos (Lá embaixo, no bote), em que parece ser, talvez, a mais bem ajustada de todos os Glasses. Os gêmeos, no entanto, só são citados: Walt é descrito como o mais leve e feliz de todos, no conto Tio Wiggily em Connecticut ficamos sabendo também que era encantador pelo ponto de vista de uma antiga namorada, mas morreu na Segunda Guerra durante uma ocupação no Japão da qual Buddy Glass se recusa a falar; Waker virou padre e pouco se sabe sobre ele, porque ele é apenas mencionado de passagem nas histórias da família Glass.

 

Os mais novos, no entanto, são os protagonistas do livro Franny & Zooey, que se passa após o suicídio de Seymour e mostra como os dois caçulas da família foram afetados não só pela morte, mas pela vida do irmão mais velho e a maneira com que ele e Buddy ajudaram a criá-los ( por exemplo: Seymour lia contos chineses para fazer Franny dormir quando ela tinha apenas oito meses de vida). Zooey é um jovem ator misantropo e insensível, Franny sofre um colapso nervoso e espiritual; os dois culpam Seymour e Buddy, além do programa de rádio de crianças prodígios, pela sua falta de habilidade de entender e aceitar o mundo e os outros.

Somos uns desajustados. Aqueles dois safados nos pegaram desde crianças e nos tornaram desajustados, com padrões inaceitáveis. Nós somos a Mulher Tatuada do circo, e nunca teremos um minuto paz, o resto da vida, enquanto não virmos que todos os outros também foram tatuados. (J.D. Salinger em ‘Zooey’)

Minhas histórias favoritas da família Glass são, com certeza, as novelas Carpinteiros, levantem bem alto a cumeeira Zooey. A primeira conta a história de quando Buddy Glass vai ao casamento de Seymour e acaba presenciando o irmão deixar a noiva no altar e não aparecer. É um texto engraçado, espirituoso, extremamente inteligente e sensível. Zooey mostra o personagem título tentando resolver o problema do colapso nervoso de Franny em duas longas conversas, primeiro com a mãe e depois com a irmã. A conversa de Zooey com a mãe é um dos textos mais impressionantes que já li. É um diálogo longo, mas em nenhum momento cansativo, as descrições dos movimentos dos personagens é impressionantemente visual, as falas são realistas no sentido de quem ninguém diz exatamente o que gostaria de dizer, mas tenta deixar tudo implícito. E, além disso, o Zooey Glass é, provavelmente, o meu Glass favorito (eu adoro o Buddy, mas ele me irrita às vezes).

Seymour disse certa vez que, em nossas vidas, só fazemos passar de um pedacinho de Terra Sagrada para outro. Será que ele nunca se engana? (J.D. Salinger em ‘Seymour: Uma Apresentação)

Eu não faço a menor ideia de quanto tempo Salinger deve ter levado construindo essa família, mas com certeza eles deviam lhes ser bem caros, uma vez que estão sempre aparecendo nos seus textos. E, além disso, está muito claro que ele tinha certeza de quem eram cada um deles e o que havia acontecido em suas vidas (achei toda a cronologia da família Glass aqui). É um tantinho difícil vasculhar tantos contos e novelas atrás dos inteligentes e desajustados Glasses, depois tentar montar um retrato inteiro com as peças que o Salinger nos deu, mas foram poucas as vezes em que vi uma família mais interessante que essa, então o esforço vale muito a pena.

Ache a família Glass em Franny & ZooeyCarpinteiros, levantem bem alto a cumeeira & Seymour: Uma Apresentação, além de em alguns contos do livro Nove Estórias.

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