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Eu acho que só existe um tipo de gente: gente.

A maioria dos livros te dá algum prazer, muitos deles te acrescentam alguma coisa, alguns te fazem enxergar o que você não via, poucos tocam o seu coração, e um número que não chega nem a uma mão inteira faz todas essas coisas e muda a sua vida.

É muito difícil encontrar essas obras, porque não existe receita ou uma listinha pronta ‘livros que vão mudar a sua vida’, as pessoas são diferentes e serão tocadas de maneiras diferentes por livros diferentes. Também não dá pra explicar exatamente como funciona esse processo. Terminamos de ler muitos livros pensando “Nossa! Amei!” ou “Que livro fantástico!”, mas quando chega no ponto final daquele livro especial, a gente não sente só com a mente, mas com o corpo todo (e é dolorido, especialmente no peito e no estômago, mas as pernas ficam meio fracas também).  É isso que, para mim, diferencia um “livro favorito” de um “livro da vida”. O Livro da Vida é especial e não dá pra saber o porquê: só para sentir.

Até o mês passado, eu tinha dois livros guardados nessa categoria: Aventuras de Alice no País das Maravilhas (e a continuação, Através do Espelho e o que Alice encontrou lá, que eu li de uma vez então conto como um), do Lewis Carroll, e 1984do George Orwell. Eu li os dois quando era bem nova, então imaginava que, a partir de alguma idade, ficássemos cínicos demais pra esse tipo de experiência (críticos demais, talvez), mas o livro O Sol É Para Todos (To Kill A Mockingbird, no original), de Harper Lee, me provou errada.

Preferia que você só atirasse em latas no quintal, mas sei que vai caçar passarinhos. Pode matar todos os gaios que quiser, se conseguir acertá-los, mas lembre-se que é pecado matar um sabiá.

A obra conta a história de Jean Louise “Scout” Finch, uma garotinha que vive com o pai, Atticus Finch, e o irmão mais velho, Jem Finch, numa cidade pequena no sul dos EUA bem na época da Grande Depressão. Scout e o seu irmão (mais um amigo que vem nas férias, Dill) brincam como crianças comuns, inventando histórias e desafiando um ao outro a fazer coisas proibidas, como entrar no jardim da casa de Arthur Radley, apelidado por toda a cidade de Boo Radley graças ao seu passado misterioso e ao fato de, desde adolescente, nunca ter colocado o pé fora de casa. Será ele um louco? Assassino? Comedor de morcegos e esquilos? As especulações sobre quem é e como é Boo intrigam as crianças ao mesmo tempo em que o pai, Atticus, é designado, em plena época em o racismo era a norma, a defender um negro que está sendo acusado de estuprar uma moça branca da cidade.

Esses dois eventos (aparentemente separados, mas que se juntam de maneira inesperada e brilhante) são o estopim para que seja desenvolvido o tema principal do romance: a perda da inocência. A certo momento, o estranho título original faz sentido, quando Atticus avisa aos filhos que eles podem caçar, mas que não matem sabiás, porque isso é pecado. Os sabiás só sabem cantar as músicas de seus corações na intenção de alegrar as pessoas, não tem a intenção de fazer mal algum, eles são completamente puros e, por isso, é pecado atirar num deles. Sim, é pecado acabar com a inocência… mas é exatamente isso que o mundo faz. E é exatamente isso que acaba acontecendo com as crianças Finch quando eles menos esperam. Depois de perceber como sua cidade é injusta e como, às vezes, não adianta tentar fazer a coisa certa, Jem fala para a irmãzinha que acha ter uma ideia do porquê de Boo Radley nunca sair de casa: “É porque ele não quer.”

Existem pessoas que se preocupam tanto com o Outro Mundo que nunca aprendem a viver neste.

Harper Lee nunca mais escreveu um livro depois deste, foi sua primeira e única obra. Entrou em um milhão de listas de “Melhores Livros de Todos os Tempo” e ganhou um Pulitzer. Foi adaptado para o cinema (um ótimo filme também) e continua influenciando pessoas a tentar enxergar o mundo do ponto de vista dos outros, porque essa é a única forma de evitar cometer uma injustiça. Atticus bem avisou para a filha que só se pode entender uma pessoa de verdade quando a gente se coloca no lugar dela, veste seus sapatos e sua pele. E, em questão de linguagem, esse é um dos grandes méritos da obra.

Ela é narrada em primeira pessoa pela pequena Scout que, na verdade, já está adulta e relembrando aqueles momentos importantes que viveu. Porque tudo é visto pelos olhos de Scout, as reflexões sobre discriminação e preconceitos (e todo o resto do livro, na verdade) são narradas de uma maneira visual, sensorial, sem racionalizar absolutamente nada. E não precisa. Harper Lee é uma contadora de histórias, uma narradora, única e brilhante (por que não escreveu mais, mulher?), que combina a voz de uma criança descobrindo o mundo com a de uma mulher crescida rememorando essas descobertas, para contar uma história sobre injustiças sociais, papéis de gênero, compaixão e a perda da inocência.

Quando crescer, todos os dias você verá brancos ludibriando negros, mas deixe-me dizer uma coisa, e nunca se esqueça disso: sempre que um branco trata um negro desta forma, não importa quem seja ele, o seu grau de riqueza ou a linhagem de sua família, esse homem branco é lixo.

Mas o que mais me impressionou nessa obra foi o carinho com que tudo foi escrito. É incrível como o livro consegue ser tão denso, tratar de temas tão pesados, e ao mesmo tempo transbordar de ternura. Eu não sei exatamente como, mas consegui perceber que a autora realmente amava e respeitava cada um dos seus personagens, o que me fez amar todos eles em resposta. Scout, Jem, Dill, Atticus (que faz o nome do livro virar quase “meu pai é mais legal que o seu”),  Calpurnia, Tom Robinson, D. Maddie, Boo Radley (Ah, Boo Radley!)… todos eles se tornaram parte de mim como fossem, a cada página, tatuados no meu coração. E ainda estão por lá. Quando terminei de ler, eu comecei a chorar e não consegui dormir a noite inteira, no dia seguinte ainda sentia um aperto no peito gigantesco e, agora, escrevendo esse texto, já derramei algumas lágrimas também. Porque alguns livros voltam para a estante depois de lidos, mas outros permanecem junto da gente para sempre.

– Atticus… ele era muito bonzinho… e gentil…

As mãos do papai estavam sob meu queixo, puxando a coberta e ajeitando-a sobre os meus ombros.

– Quase todas as pessoas são boas, Scout, quando finalmente as conhecemos.

Ele apagou a luz e foi para o quarto de Jem. Ficaria lá a noite inteira, e ainda estaria lá quando Jem acordasse de manhã.

Livro: O Sol É Para Todos (To Kill A Mockingbird)
Autor: Harper Lee
Editora: José Olympio (2011)

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