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Love. The reason I dislike that word is that it means too much for me, far more than you can understand

Comecei a ler Anna Karenina, se não me engano, em 2008. Li mais ou menos um quarto do livro, e por mil e um motivos (monografia, esquecimento, preguiça, outros livros), acabei deixando ele na estante empoeirando até agora, quando finalmente resolvi terminá-lo. Engana-se quem acha que eu voltei perdidinha depois de quatro anos. O que eu acho lindo no Tolstoi é que os personagens são tão bem detalhados e construídos que o leitor passa a conhecê-los bem, a ponto de superar a passagem do tempo.

A princípio eu tinha ressalvas pra falar de Anna nesse blog porque é um clássico. Teoricamente, todo mundo conhece os clássicos, e não seria nenhuma novidade escrever algo sobre um livro do século XIX que todo mundo já ouviu falar. Mas aí aconteceu uma coisa no mundo das celebridades que, somando com toda essa minha vaibe feminista que paira ao meu redor nos últimos tempos, me fez mudar de ideia.

Anna Karenina fala de amor, paixão e adultério. Existe toda uma dualidade que Tolstoi constrói tendo como base o relacionamento de Lievin e Kitty (puro, inocente, eterno) e o de Anna e Vronsky (volúvel, intenso, secreto, carnal). Não é objetivo do autor exaltar um em detrimento do outro, mas sim demonstrar com sutileza que não só de paixão um relacionamento consegue sobreviver. Mas isso tudo você encontra nas resenhas internet afora.

O que eu queria mesmo falar aqui é sobre o adultério. A traição de Anna com o Conde Vronski  mostra o quanto o tema era polêmico na alta sociedade russa do século XIX. Anna é socialmente excluída e passa a viver marcada pela vergonha de ter agido de forma tão “baixa”, mesmo estando presa num casamento arranjado com um homem mais velho, sem um pingo de afeição por ele. Ela que sofre todas as sanções sociais por ter agido de forma tão “vergonhosa”, enquanto que Vronski continua frequentando seus espaços, convivendo com seus amigos e parentes, indo aos eventos sociais. Ninguém o censura, o condena, o julga, enquanto que Anna, por ser mulher, uma “dama respeitável”,  é obrigada a viver enclausurada, sem amigos, muitas vezes porque até aqueles que a visitavam eram mal falados. Inclusive, no próprio livro, muitos personagens chegam a essa injusta constatação.

Alguém consegue se lembrar de um caso semelhante que aconteceu recentemente no mundo das celebridades? Isso mesmo, o casal 20 adolescente, Kristen Stewart e Robert Pattinson, cujo relacionamento foi abalado pela traição da moça. Ninguém fala do diretor, Rupert Sanders, que é casado, com filhos, muito mais velho que ela. Apenas Kristen é apedrejada, sendo alvo diversas críticas, ataques de ódio, slutt-shaming e todo tipo de punição. Foi cortada da sequência de Branca de Neve e o Caçador, enquanto que Sanders, diretor, continuou com seu trabalho como se nada tivesse acontecido.

Enquanto lia Anna Karenina, enxergava a Kristen em vários momentos. Não só ela, como muitas outras mulheres que parecem viver ainda presas num romance de 1877. Comentando com outras pessoas sobre a leitura, e fazendo esse paralelo com a vida real, todas elas chegavam a uma mesma conclusão: Nossa, não mudou nada de lá pra cá!

Sim. Não mudou nada. Uma mulher de hoje consegue se identificar com um livro escrito há 135 anos.

Tem alguma coisa errada.

Filmes: Conheço umas três versões de Anna Karenina para o cinema. A mais recente deve estrear aqui no Brasil no ano que vem, e tem Lude Law e Keira Knightley (oh, sério?) no elenco.

Livro: Anna Karenina
Autor: Liev Tolstoi
Editora: Cosac Naify (2005)

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