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Quando criança, eu queria ser um trem. Não percebia que isso era incomum – as outras crianças brincavam com trens, não de ser um.

Alguns livros não poderiam ter sido escritos senão na época em que o foram. Na maioria das vezes, esse é o caso dos livros de ficção científica. Porque, ao contrário do que os desavisados podem pensar, a boa ficção científica não fala do futuro, mas do presente. Desde que surgiu, lá na era clássica de Julio Verne, a sci-fi sempre foi uma extrapolação do que o autor via no mundo naquela época. No caso do Verne, a ciência era vista como a forma da humanidade de progredir, era algo positivo, mas depois, por conta das guerras mundiais, essa visão mudou. Isaac Asimov e Arthur C. Clarke já mostravam uma visão mais ambígua com relação à tecnologia, em que ela podia ser o bem e também o mal, dependendo de como usada. O subgênero seguinte, a New Wave (de Philip K. Dick), apareceu na época dos hippies, o foco foi muito mais as ciências humanas e a tecnologia era mais antagonista que antes. Nos anos 80 apareceu o Cyberpunk, cujo principal autor é o William Gibson, que retomou a tecnologia hardcore da Era de Ouro mas mantendo os questionamentos humanos da New Wave, além de começar a falar da internet e da invasão da ciência no cotidiano.

Confesso que só nos últimos tempos comecei a ler a ficção científica escrita de lá pra cá, mas tive este mesmo sentimento de que “este livro não poderia ter sido escrito em outra época” com Homem-Máquina, de Max Barry.

Eu não lia uma manchete havia horas. Podia estar acontecendo uma guerra. Podia ter havido terremotos. Liguei o rádio pela primeira vez em anos, e ele começou a matraquear sobre tapetes com desconto e como o rádio era uma excelente mídia para veiculação de propagandas, e será que eu gostaria de ganhar mil dólares?; olhei incrédulo para o aparelho e o desliguei. Queria meu celular. Eu nem queria fazer nada especifico. Só queria a possibilidade de fazer coisas. E o celular podia fazer várias.

Charles Neumann é um engenheiro que trabalha num instituto de pesquisa chamado Futuro Melhor. Ele não tem amigos, não sabe conversar direito ou interagir com os outros, mas é um gênio quando o assunto são máquinas e tecnologia. Uma dia ele perde seu celular e entra em parafuso. Sério. Ele fica completamente pirado porque não consegue encontrar o aparelho, tanto que acaba se enfiando embaixo de uma das máquinas da Futuro Melhor para procurá-lo, sobre um acidente e perde uma perna. Esse começo do livro do Max Barry é simplesmente genial. Porque essa sensação de completa dependência da tecnologia é o tipo de coisa que só nós, humanos do século XXI, podemos entender. Em certo momento, Charles tem a ideia de telefonar para seu celular numa tentativa de localizá-lo, mas então se dá conta de que ele não sabe o número, já que a informação está na memória do próprio celular. Quem nunca?

Então Charles, engenheiro talentoso viciado em tecnologia, perde uma perna e começa a experimentar próteses. Só que até o modelo mais avançado, usado por atletas paraolimpicos, parecem muito pobres para ele e isso o leva a construir a sua própria perna artificial. Animado com o resultado, já que ele deixou de lado a ideia de imitar uma perna real e inventou algo ainda melhor, Charles começa a questionar se não seria uma vantagem trocar seus membros orgânicos por versões mecânicas aprimoradas. Creio que dá para imaginar o que vem depois…

Não é só pela temática que Homem-Máquina é um livro que só poderia ter sido escrito hoje em dia. Max Barry também usou das nossas tecnologias para escrever e ter ideias para a história. O primeiro rascunho da obra foi escrito durante 9 meses em seu blog, onde ele publicava uma página por dia e recebia opiniões e sugestões de seus leitores. No posfácio da obra, ele agradece vários deles e explica como o livro só foi escrito porque tinha essas pessoas o incentivando e dando ideias todos os dias (ele inclusive disse que usou algumas das sugestões na versão final da obra). A capa do livro foi escolhida, inclusive, numa votação com os “leitores-beta” da obra (as opções foram essas aí de cima, ganhou a número 5).

Eu realmente adorei o livro. Comecei a ler sem expectativas, porque não conhecia o autor e, como disse antes, não conheço muito da ficção científica que está sendo feita hoje em dia. Terminei completamente impressionada em ver alguém fazer com a minha época o que o William Gibson fez com os anos 80 em Neuromancer. Além disso, a história funciona porque o personagem é muito bem construído e até as decisões mais malucas e bizarras (além do final impressionante e aterrorizante) fazem sentido quando saem da cabeça dele.

O ser humano é imperfeito, falho e seu corpo não faz tudo o que poderia, será que esses são motivos para transformá-lo se tivermos a tecnologia para fazê-lo? O nosso mundo diz que sim. É só ver a quantidade de cirurgias cosméticas e padrões de perfeitos que nos são impostos. Além disso, a relação que temos com a tecnologia hoje em dia é, no mínimo, estranha. Lembra quando o William Gibson falou da fetichização dos aparelhos eletrônicos? Então, eu acho que chegamos ao ápice disso. Ninguém quer ter um celular, todo mundo quer ter um iPhone. O que conta não é o que o aparelho faz, mas o que ele diz sobre você.

Por isso, eu não acho que o autor tenha ido tão longe assim ao extrapolar o nosso presente. Ele juntou a nossa busca por perfeição com a dependência e a fetichização da tecnologia características do século XXI. Quantos anos até que sejamos todos homens-máquina?

Livro: Homem-Máquina (Machine Man – 2011)
Autor: Max Barry
Editora: Intrínseca (2012)

Extras:

Para quem quiser ver a versão “em série” de Homem-Máquina, o Max Barry ainda a mantém online em seu site (com os comentários, inclusive) e disse que esta é uma especie de “versão anotada” do seu livro: Machine Man – The Serial.

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