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O ponto alto das obras do escritor inglês Bernard Cornwell é o cunho histórico dos enredos. Batalhas sobre a formação e desenvolvimento da Inglaterra caminhando lado a lado com o crescimento e estabelecimento do Cristianismo.

Seu livro Azincourt, lançado em 2008, narra a batalha de Azincourt, acontecida na França em 25 de outubro de 1415, no dia de São Crispim e São Crispiniano, quando o exército inglês, comandado pelo Rei Henrique V, derrotou o exército francês, três vezes maior. A batalha fez parte da Guerra dos Cem Anos, uma série de conflitos armados entre França e Inglaterra, nos séculos XIV e XV.

Nicholas Hook, arqueiro inglês de origem pobre, é considerado amaldiçoado e vê-se como fora da lei após ter batido em um padre, por ter ido contra suas ordens ao ter ouvido uma voz em sua mente: a princípio ele achou que era a voz de Deus, depois achou que era do Diabo, mas por fim era a voz de São Crispim, que junto de seu irmão São Crispiniano é padroeiro de Soissons, cidade francesa onde Nick Hook conseguiu sobreviver após um cruel cerco francês e de onde ele voltou à Inglaterra, para juntar-se ao exército do Rei Henrique V, conseguindo, em seguida, tomar a cidade francesa de Harfleur, em meio a baixas de homens por causa dos embates e de doenças. Após conseguir esta cansativa vitória, o Rei prefere ignorar os conselhos de marchar de volta à Inglaterra e leva seu exército exausto mais adentro da França, até a cidade de Calais. A motivação do rei é reclamar a coroa francesa, a qual ele tem direito por sangue.

Da mesma forma que na trilogia A Busca do Graal, Cornwell dá enfoque ao trabalho dos arqueiros nas batalhas. E no caso dessa batalha específica, o sucesso inglês deu-se primordialmente pela presença dos arqueiros, muito mais ágeis e mortais que os besteiros franceses, mais numerosos que os senhores de armas e com a vantagem de atacar de longe. Sinto no Bernard Cornwell – famoso por descrever o ardor das batalhas – uma tendência em escrever de uma forma mais apaixonada sobre o ofício dos arqueiros.

A batalha de Azincourt não foi decisiva a ponto de mudar o rumo da guerra, mas é famosa pela diferença numérica entre os exércitos – os números diferem dependendo da fonte, mas fala-se desde 12 mil franceses para 9 mil ingleses, e até de 4 ou 6 franceses para cada inglês -, e também por ter sido o pano de fundo da peça Henrique V, de William Shakespeare, em 1599, obra que fecha a tetralogia que se inicia com a peça Ricardo II, Henrique IV Parte 1 e Henrique IV Parte 2.

Em 2012, a rede de televisão inglesa BBC exibiu a série chamada The Hollow Crown, cujos 4 episódios equivalem às 4 peças de Shakespeare.

Ricardo II era um rei que gostava do poder e de tudo que ele trazia, pessoas para adorá-lo e seus favores. Após tomar as propriedades e riquezas do primo que ele mesmo havia exilado, se inicia o processo que o leva a entregar a coroa a Henrique IV. Gostei desse episódio por causa da dramaticidade, especialmente de Ricardo, que é muito intenso em suas palavras e ações.

As duas partes sobre Henrique IV falam de seu reinado e especialmente sobre os problemas que tem com seu primogênito, Hal, que ao invés de se interessar pela sucessão do reino, prefere uma vida de excessos.

Henrique V mostra como a morte do Rei leva Hal a se transformar totalmente para assumir o lugar do pai na Corte. A mudança é notória e percebida por todos, especialmente por aqueles que dividiam com ele a vida descompassada, e esperavam ter seu valor reconhecido com a ascensão do amigo, mas o novo Rei nega seu passado para escrever sua história a partir daquele momento. Um rei que se disfarça e vai até seus homens em seus acampamentos para saber quais são suas opiniões sobre ele e sobre a guerra, e que discursa para inspirá-los a buscar a vitória

“We few, we happy few, we band of brothers.”

(Henrique V)

Mas voltando à Azincourt do Cornwell, após assistir à série pude ver como ele se baseou no que Shakespeare escreveu (estou partindo do pressuposto que os roteiristas da série foram fiéis ao texto shakespereano, desconfio que foram sim porquê em algumas cenas eu consultava a peça e o texto batia – não li as peças, shame on me) para criar situações bastante significativas em sua obra. Pude perceber várias passagens similares nas duas obras, o que me fez pensar, como a cada vez que leio Cornwell, o quanto ele é sagaz. E enquanto Shakespeare foca no bom Rei, na batalha interna e nas decisões que ele precisa tomar, Cornwell foca nos guerreiros e nobres senhores de armas que fazem a coisa acontecer com arcos, espadas e lanças, dentro da batalha, recebendo os pingos de sangue do inimigo.

Agora vou fazer meu dever de casa e ler Shakespeare!

Livro: Azincourt (2008).
Autor: Bernard Cornwell.
Editora: Record (2009).

Livro: Henrique V (Henry V).
Autor: William Shakespeare.
Editora: L&PM (2007).

 

 

 

Série: The Hollow Crown (2012 – BBC – não exibida no Brasil).

 

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