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Nesse momento, o relógio é a única coisa que tem movimento no quarto:  um cauteloso ser vivo noturno movido a eletricidade. Os números, em cristal líquido verde, vão se alterando, esquivando-se dos olhos humanos. Agora são 23h59.

Numa equação matemática, eu diria:

Bela Adormecida + Antes do Amanhecer/Antes do Por-do-Sol + 1984 + Kafka = Após o Anoitecer, de Haruki Murakami.

Eu sou grande fã desse autor, mas ainda não tinha tido a oportunidade de ler ‘Após o Anoitecer’, quando peguei não consegui largar até terminar. A minha primeira impressão foi bastante estranha, demorei para perceber o que acontecia na narração. É que o Murakami usa, nesse livro, a primeira pessoa do plural para narrar e eu acredito que nunca tinha lido um livro assim. Primeiro achei que era um personagem falando dele e de algum amigo, mas aí percebi que o tal narrador não estava presente apesar de falar de forma pessoal, e então me toquei que o(s) companheiro(s) narrador que formavam o tal “Nós” também não estavam e que aquele era somente um ponto de vista. Achei complicado e por um momento fiquei me perguntando se aquilo era realmente necessário ou se era só uma forma do autor mostrar como ele pode ser esperto. Foi só lá pelo meio do livro que eu compreendi a escolha do narrador e me toquei que, apesar de bizarro e um tanto desconfortável, a escolha do ponto de vista é um acerto para essa história em particular.

Após o Anoitecer se passa durante uma madrugada e os capítulos são narrados “em tempo real”, com direito a relógio desenhado na página pra mostrar o horário em que as ações acontecem. Mas se for pensar bem, poucas coisas acontecem “de fato” no livro, especialmente com a protagonista, Mari Asai, uma estudante de 19 anos que resolve passar a madrugada lendo um livro em restaurantes.

É engraçado perceber logo no começo como o estilo narrativo interfere na história, já que demoramos para conhecer Mari exatamente porque o narrador é um observador da cena e não uma voz que fala de dentro na cabeça dela. E é por isso que eu coloquei 1984 na equação lá de cima: esse narrador-observador é incapaz de interferir, somente descreve as cenas, o que combina perfeitamente com um dos temas do romance: a vigilância. E, mais, em diversos momentos ele usa termos como “a câmera” ou “close-up”, o que deixa isso ainda mais claro. Mari está sendo vigiada por esse(s) narrador(es) o tempo inteiro, e eles a descrevem e dão opiniões, mas não conseguem entrar na cabeça dela e nos dizer o que ela pensa. E isso acontece com todos os outros personagens também.

– Mas não dá trabalho ficar trocando os LPs? – pergunta Mari.

O barman sorri.

– Bom, estamos em plena madrugada. O trem só vai começar a circular de manhã. Para que a pressa?

Me perdi um pouco, mas voltando para o enredo: A estrutura me lembrou bastante os filmes Antes do Amanhecer Antes do Por-do-Sol, onde os personagens passam por diferentes locais da cidade ao mesmo tempo em que conversam… e é isso. No caso do livro, acontecem algumas outras coisas e o ponto de vista foca em outros personagens em alguns momentos, mas basicamente seguimos a madrugada de Mari, que consiste em conversar com diferentes pessoas sobre assuntos que vão desde o trivial até o foco do seu problema, que é a explicação do porquê uma menina como ela decidiu passar a noite fora de casa lendo um livro.

E essa explicação é outra parte importante do livro. Mari está fora de casa porque sua irmã mais velha, Eri, está dormindo profundamente há dois meses. Um dia, Eri disse para a família que ia dormir um pouco e, depois disso, nunca mais acordou. Eu devo dizer que as partes do romance em que o ponto de vista mostra Eri em seu quarto me deram muito, muito, muito medo. De verdade. E mais algumas outras, que envolvem reflexos em espelhos, também me deixaram arrepiada. Aqui é que entre o Kafka da equação, e também no fato de que todo o livro tem uma atmosfera de pesadelo.

Seria tão bom dormir profundamente e, ao despertar, estar de volta à minha realidade.

Tirando o surrealismo, os sonhos macabros, a narração original, o contraste entre luz e sombra (dia e noite, sonho e realidade, o duplo em geral), o coração do livro está no relacionamento dessas duas irmãs antes separadas pela vida e, agora, por realidades. Pessoalmente, eu costumo me identificar muito com os personagens do Murakami, e com esse livro não foi diferente, o que me ajudou a sentir uma grande ligação com a história e com o drama da Mari. O fim do livro é emocionante, eu me peguei chorando em cima das últimas páginas e torcendo, como nunca, por um final de conto de fadas mesmo sabendo que esse não é o estilo do Murakami. Aliás, falando em Murakami, estão no livro: jazz, cultura pop, gatos, telefonemas misteriosos e outros elementos que um leitor de Murakami já está acostumado (e até espera) a encontrar em todas as suas obras.

E, também como é costume do autor, no fim o tema da história é a solidão em que a sociedade contemporânea nos coloca. Uma solidão que não acaba nem mesmo quando você está próximo de alguém, mesmo que esse alguém seja uma pessoa que viveu com você a sua vida inteira, nasceu do mesmo pai e da mesma mãe, cresceu ao seu lado e deveria conhecer cada parte sua, como sua irmã. E, nesse caso, ainda é uma solidão contraditória porque existe a sombra do duplo o tempo inteiro. Os personagens são solitários e isolados ao mesmo tempo que estão sempre acompanhados e sendo observados. Bom, agora que parei pra pensar, acho que não é tão contraditório assim… ou é, pode ser, mas não acho está muito longe da nossa realidade.

Livro: Após o Anoitecer (After Dark – 2004)
Autor: Haruki Murakami
Editora: Alfaguara (2009)

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