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Um belo dia eu abro minha caixa de e-mail e vi que recebi um convite para ser colaboradora do blog! A auto-estima foi às alturas! Adoro ler, gostaria que houvesse uma profissão, tipo leitor profissional, eu me esforçaria muito para ser referência da área! Mas no fim das contas leio menos que gostaria – afinal de contas eu preciso viver a vida que está fora dos livros… Quando era criança/adolescente não cultivava o hábito de leitura com muita frequência, mas hoje em dia acho que estou querendo tirar o atraso, incrível como todo mês na fatura do cartão de crédito tem dívida com alguma livraria!

Pensei muito para decidir sobre com qual livro eu começaria minha participação por aqui, então escolhi um livro que li recentemente, depois de uma tentativa frustrada há alguns anos. O Lobo da Estepe, do escritor alemão Hermann Hesse, que fala da vida de Harry Haller, um cara no auge dos seus 50 anos que não aguenta mais viver – mas não tem coragem de por um fim à sua vida. Na primeira vez que tentei ler o livro, larguei rapidamente, acho que porque não tinha, naquele momento, maturidade para encarar uma prosa tão negativista.

Mas quando decidi encará-lo novamente, fluiu fácil demais! Hesse trabalha com muita digressão e muita psicologia, além de umas boas críticas sociais, e ele fez de Harry uma pessoa que não consegue enxergar nada de bom na vida, que não consegue enxergar além de nenhum acontecimento bom ou ruim. Dizem que o livro é autobiográfico, e de qualquer forma estava muito a frente de sua época, pois não era muito convencional, em 1927, se tratar de assuntos tão obscuros.

Harry é um intelectual que não encontra satisfação em nada, que reclama muito de sua solidão, o que certa forma, em algum momento, deixa o leitor com aquele sentimento de “Faça algo da sua vida, homem!”, mas ao mesmo tempo, de alguma forma, acabamos nos identificando com ele em algum nível.

O “lobo” representa essa solidão, esse distanciamento das pessoas no qual ele se confina. O livro também apresenta a teoria da multiplicidade do ser, que defende a existência de diferentes personalidades simultâneas em todos nós, não apenas uma ou duas, como Harry acreditava antes de se autoconhecer através do “Tratado do Lobo da Estepe”.

É um livro de uma profundidade que no fim das contas me assustou um pouco. Pouco importa se ele foi escrito há mais de 80 anos: ele é atemporal em vários sentidos. E mesmo tendo um quarto de século a menos que Harry, em vários momentos pude me ver nele. Espero daqui a alguns anos reler a obra, para ver o quanto de lobo ainda existe em mim, se mais, menos, ou se eu não vou conseguir engatar a leitura, como quando tentei ler da primeira vez.

Livro: O Lobo da Estepe (Der Steppenwolf – 1927)
Autor: Hermann Hesse
Editora: Record

Extras

A banda brasileira O Teatro Mágico tirou seu nome do livro. Segundo o vocalista, Fernando Anitelli, suas composições tratam dos personagens que as pessoas precisam assumir nas diversas situações do cotidiano, assim como nas obras de Hesse.

“Existe uma passagem onde o personagem principal passa pela frente de um circo e a placa diz o seguinte: ‘O Teatro Mágico: Entrada para Loucos, entrada para raros.’ Dali também surgiu o nome do nosso primeiro CD. No Teatro Mágico do livro, é onde o personagem principal se desnuda de todas as suas máscaras e vive intensamente. Queria passar essa ideia.”

Fernando Anitelli, da banda O Teatro Mágico.

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