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Eu li em Para ler romances como um especialista (Thomas C. Foster) que devemos parar de confiar no narrador de um livro no momento que ele usa a palavra “Eu”. Porque narração em primeira pessoa dá somente um único ponto de vista e  o que vai ser contado para a gente nunca poderá ser a verdade completa, apenas uma opinião sobre o fato.

Pensando nisso, para inaugurar a nossa seção 5 livros (na qual vamos indicar cinco obras usando alguma característica em comum) resolvi listar algumas histórias em que, em hipótese alguma (e por mas charmosos e dignos de atenção que pareçam), devemos confiar no ponto de vista de seus narradores.

1. Lolita, de Vladimir Nabokov

Eu acho que poucas pessoas teriam estômago para Lolita se a história não fosse contada do ponto de vista de Humbert Humbert. Ao mesmo tempo, por escrever muito bem e o texto ser confessional e melancólico, acabamos por confiar na versão de Humbert dos fatos mesmo quando, logo no início do romance, ele mesmo diga que está escrevendo suas memórias da prisão. Durante o romance inteiro, o personagem tenta nos convencer de que ele não é a pessoa horrível que, na verdade, é. Então tenha isso em mente quando abrir o livro.

2. Laranja Mecânica, de Anthony Burgess

Outro exemplo de pessoa horrível e bom personagem. Com suas gírias estranhas e sensibilidade artística, Alex acaba por nos conquistar e até ganhar nossa simpatia ao mesmo tempo em que espanca mendigos e estupra mulheres em suas próprias casas. Depois ele mesmo é alvo de abuso e se torna difícil não ficar do lado dele e acreditar no que ele está contando. Mas esse caso é muito menos sutil que o primeiro e, apesar de ele ser um dos meus personagens favoritos, duvido que alguém acabe por se convencer de qualquer argumento que justifique a moral e ações problemáticas do personagem criado por Burgess.

3. Precisamos falar sobre o Kevin, Lionel Shriver

Aqui, a mãe do menino que comete um massacre em sua escola me pareceu tão problemática quanto o filho. O livro é composto por uma série de cartas que ela escreve para o marido com a clara intenção de mostrar que Kevin era um pequeno monstro desde seu nascimento, o que não me parece algo que devemos comprar sem questionar antes as próprias condutas da personagem e quais efeitos elas podem ter causado no filho. Mamãe maluca conta a história do filho maluco, então não confie em ninguém.

4. Dom Casmurro, Machado de Assis

Não dava para falar em narradores não-confiáveis sem falar do Bentinho do Machado. Ele está completamente convencido de que foi traído por Capitu e que o filho dos dois é, na verdade, filho de seu melhor amigo. Mas dois pontos precisam ser levados em consideração antes de acreditarmos nisso: Bentinho é completamente doente de ciúmes da esposa e toda a sua visão está contaminada por isso, então não adianta ele dizer que o filho era a cara de Escobar, porque podia ser só dentro da cabeça dele; e ele é advogado, então o livro inteiro é uma tese de defesa em que ele colocar os argumentos de maneira a nos convencer do que ele acredita.

5. Psicopata Americano, Bret Easton Ellis

Eu vou ser extremamente sincera aqui e dizer que não terminei de ler esse livro. Na verdade, eu só cheguei até  a primeira morte, porque tenho estômago sensível pra essas coisas (mal conseguir ler outro dele, Glamorama). Mas eu acho que ver o mundo do ponto de vista de um psicopata é um excelente exemplo de narrador não-confiável. Ainda mais porque, segundo o que pesquisei, existem contradições no livro do tipo “personagens trocam de identidade ou são apresentados como se fossem outras pessoas”, o que deixa Patrick Bateman ainda menos digno de confiança. Falam, inclusive, que o autor deixa em aberto se os crimes aconteceram de fato ou se são somente fantasias psicóticas do protagonista.

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