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Eu só entendi sobre o que realmente fala o livro Não Me Abandone Jamais, do escritor japonês Kazuo Ishiguro, quando estava quase no fim do livro. Porque a história é uma daquelas que te faz pensar que o tema é uma coisa só para depois te mostrar que não é bem assim, ganhando mais uma dimensão e aumentando a sua profundidade e efeito no leitor. Tudo bem, eu sei que não deu muito bem para entender o que eu quis dizer, mas isso é porque estou fazendo o melhor que posso para falar sem estragar o fim do livro. Vou tentar de novo usando uma sinopse: Não Me Abandone Jamais conta a história de Kath, uma menina que nasceu num escola e cresceu numa escola ‘especial’ junto com um grupo de crianças também ‘especiais’. Eles são criados para serem o mais saudáveis possível, não tem contato algum com o mundo exterior e, aos poucos, vão descobrindo o seu destino. Kath, assim como as outras crianças, é um clone, e a única função de sua existência é crescer e doar seus órgãos para pessoas que precisam.

Só por isso já dá para imaginar o porquê de eu ter escolhido esse título para o texto, né? Pois é. Esse livro é muito, muito triste. Mas não triste daquele jeito melodramático que te faz começar a chorar ao mesmo tempo que percebe todos os artifícios que o autor usou pra te levar até esse ponto. Não, Não Me Abandone Jamais é triste de um jeito melancólico e calmo, talvez por isso muito mais dolorido. Aliás, o que mais gostei nesse livro foi a delicadeza e a sensibilidade do autor, justamente porque, com um enredo desses, a história podia desbocar num dramalhão em um segundo, mas em nenhum momento você se sente manipulado ou forçado a ter pena dos personagens. É triste porque é triste, não porque o livro te obriga a achar que é.

Não consigo parar de pensar nesse rio, não sei onde, cujas águas se movem com uma velocidade impressionante. E nas duas pessoas dentro d’água, tentando se segurar uma na outra, se agarrando o máximo que podem, mas no fim não dá mais. Eles precisam se soltar, se separar. É assim que eu acho que acontece com a gente. É uma pena, Kath, porque nós nos amamos a vida toda. Mas, no fim, não deu para ficarmos juntos para sempre.

Eu li uma entrevista do Kazuo Ishiguro para o Paris Review em que ele fala que, apesar das críticas, achou que este livro é um dos seus pais leves e positivos. Não porque a história é uma alegria só, mas porque no momento em que deu uma vida limitada para seus personagens, ele decidiu focar no lado bom do ser humano e no que é realmente importante quando você não tem esperança alguma. E é aqui que o livro me enganou, porque eu comecei a ler achando que ia encontrar uma história de ficção científica sobre morte e clones, e o que encontrei foi uma história de ficção científica sobre a vida e os seres humanos. O que significa estar vivo? O que é uma alma? O que define quem é humano e quem não é? É sobre isso que fala Não Me Abandone Jamais. E, mais, é sobre Kath e seus melhores amigos, Ruth e Tommy, três personagens extremamente complexos e reais, cheios de qualidades e defeitos, que vivem do jeito enquanto sustentam o insustentável. O mais impressionante para mim (e foi por isso que a coisa toda me pegou de surpresa), foi o fato de lermos a história do ponto de vista de Kath, uma personagem extremamente doce e por quem é impossível deixar de sentir empatia, impossibilitando que questionemos sua humanidade, só para depois ela ser questionada por outros personagens. Essa dinâmica extremamente bem pensada me pegou tão de surpresa que, quando me toquei do que estava aconteceu, parecia que tinha levado um soco no estômago.

Talvez desde os cinco ou seis anos houvesse um murmúrio no fundo da sua cabeça dizendo: “Um dia, talvez não muito distante, você vai saber qual é a sensação”. E assim é que você já está na expectativa, mesmo que não saiba disso. Está à espera do momento de dar-se conta de que de fato é diferente deles; de que existem pessoas lá fora, como a Madame, que não odeiam você, nem lhe desejam nenhum mal, mas que ainda assim estremecem só de pensar em você – de lembrar como você veio a este mundo e porquê -, e que sentem pavor diante da simples possibilidade de que sua mão roce a mão deles. É um momento gélido, esse, o da primeira vez em que você se vê através dos olhos de uma pessoa assim. É como passar diante de um espelho pelo qual passamos todos os dias de nossas vidas e de repente perceber que ele reflete outra coisa, uma coisa estranha e perturbadora.

Apesar de levantar todas essas questões sobre a alma e os seres humanos, Kazuo Ishiguro, muito sabiamente, não tenta responder nenhuma delas. Afinal, já são séculos e séculos de filosofia sem ninguém encontrar verdade alguma. Mas o que está no livro é que talvez uma das coisas que defina a humanidade de alguém seja a maneira como a pessoa lida com a total impossibilidade de um final feliz. Talvez isso seja o mais importante.

Livro: Não Me Abandone Jamais (Never Let Me Go – 1954)
Autor: Kazuo Ishiguro
Editora: Companhia das Letras (2005)

Extras

O título do livro é por conta da canção Never Let Me Go, cuja versão cantada pela Judy Bridgewater tem um papel lindíssimo na história.

Ainda, o livro foi adaptado para o cinema em 2010, mas eu não assisti e nem sei se vou, para falar a verdade. Eu até estava com vontade, mas aí fiquei sabendo que transformaram o livro numa história de amor e isso me cortou toda a vontade. Por que raios alguém ia querer reduzir esse livro em uma historiazinha de amor? E agora mesmo, quando fui procurar o link para a música, li comentários de que ela foi usada no filme como “trilha para o casal” e isso me deixou mais desanimada ainda, porque a função dela no livro não absolutamente nada disso e é tão mais significativa…

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