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“Seus pés tinham crescido desde que casara com o Dr. Xia. Por tradição, os Manchus não adotavam a prática do enfaixamento, de modo que ela deixara de usar as ligaduras e, gradualmente, os pés tinham se tornado um pouco maiores. Este processo era quase tão doloroso como a operação original. Os ossos partidos não saravam, evidentemente, e os pés nunca recuperavam a forma original, permanecendo aleijados e encolhidos. A minha avó queria que os dela parecessem normais, e costumava meter algodão dentro dos sapatos”

É fácil reclamar da vida quando a gente se vê numa situação difícil. É fácil praguejar, xingar, achar que tudo é injusto com você…Mas não é nada fácil levar um tapa na cara e ver que tem gente por aí que já passou por coisas que você sequer poderia imaginar que pudessem acontecer com uma pessoa.

Foi esse o sentimento que tomou conta de mim enquanto lia Cisnes Selvagens. Nele, Jung Chang, uma chinesa que hoje mora na Inglaterra, conta a história de três gerações da família: a dela, a da mãe, e a da avó. As três presenciaram grandes fatos históricos do país, desde a queda de Chang Kai-Chek, passando pelo Grande Salto Para Frente e pela Revolução Cultural. Como se tudo isso não fosse bastante, são mulheres, o que acrescentou uma dose a mais de sofrimento e dificuldade em suas vidas.

Apenas de ter tido uma vida relativamente fácil comparada ao restante das crianças do regime de Mao, Jung Chang sofreu emocionalmente e psicologicamente com o terrorismo de uma ditadura, que, entre outras tragédias, culminou com a loucura e morte de seu pai, fiel servidor de Mao e do regime. Nesse ponto, o livro consegue passar o clima de tensão e desconfiança que dominava a China, e não há como evitar se sentir afetado.

“Todas as coisas que eu amava estavam desaparecendo. O mais triste de tudo, para mim, foi a destruição da biblioteca: o telhado de telhas douradas, as janelas delicadamente esculpidas, as cadeiras pintadas de azul…As estantes foram derrubadas, e alguns alunos divertiram-se rasgando os livros em pedaços”

 Há quem diga que o relato de Chang não é 100% fiel, sendo permeado por visões romantizadas, dando um toque ficcional ao livro. Se isso aconteceu, eu não me importei. Não duvido da veracidade dos fatos, nem me incomodou o tom dramático. É difícil falar da própria vida de forma impessoal e insensível, portanto incorrer a uma narração dramática é mais do que justificado. Talvez isso dê um tom muito maior de humanidade ao relato, aproximando o leitor mais do que se ela tivesse simplesmente elencado fatos históricos sem nenhuma carga sentimental atrelada a eles.

Não preciso dizer que Cisnes Selvagens choca, deprime e faz chorar. Mas é um tapa na cara necessário para que a gente possa, pelo menos por um momento, sair do nosso casulo de draminhas da vida moderna, e enxergar a contradição desse mundo, no qual ainda é possível encontrar relatos como esses.

Livro: Cines Selvagens – Três Filhas da China
Autor: Jung Chang
Editora: Companhia das Letras

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