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Jornalistas são, normalmente, vistos de duas maneiras: ou é aquele cara super ético que não abre mão de seus princípios e está sempre em busca da verdade; ou é o safado, sedento por poder, facilmente corrompível e que manipula todos ao seu redor. Vamos combinar, então, que na vida real não é uma coisa e nem outra. E, aproveitando essa introdução, vamos expor também a impossibilidade em se escrever qualquer coisa  sem deixar-se contaminar por suas vivências e crenças. A maior lição que tirei da minha faculdade de jornalismo foi que não existe imparcialidade. Nunca. O que se pode fazer é tentar ouvir o maior número de pessoas para descobrir muitas versões do mesmo fato, mas a verdade é que cada uma delas também viu com seus olhos  e vai repetir com suas palavras, então o terceiro (o leitor) vai estar sempre lendo o que alguém viu sobre o acontecido e não o fato em si. E as pessoas que escrevem, como eu disse, não são heróis ou vilões, na melhor das hipóteses, são só imperfeitos.

São essas pessoas que protagonizam o livro Os imperfeccionistas, de Tom Rachman, que conta a história de um jornal de língua inglesa sediado em Roma e seus funcionários. O autor, aliás, foi jornalista antes de escrever ficção, o que traz bastante realismo à história. O livro tem muitas vozes, são onze personagens bem variados, cada um com seu capítulo (ou conto) e problemas pessoais se misturando com os profissionais. O que eles tem em comum é o fato de estarem passando por momentos ruins em suas vidas. E, claro, todos são imperfeitos e não parecem muito interessados na perfeição, ou pelo menos não mais. De formas diferentes, estão desiludidos e cansados, em crise consigo mesmos e presos numa vida que já não os satisfaz.

Você encontra no livro, entre outros, o jornalista veterano que, já sem conseguir matérias, resolve inventar uma; o iniciante, inseguro, que não sabe por onde começar e se vê sendo manipulado pelas pessoas ao seu redor;  a editora-chefe que subiu de cargo numa velocidade impressionante e por isso atraí raiva dos outros funcionários; o chefe de redação, workaholic, que descobre estar sendo traído pela esposa; o dono do jornal, completamente alheio ao que está acontecendo, que não sabe o que fazer com a bomba que estoura em suas mãos; o obtuarista que perde a filha e recebe mensagens perguntando quando pretende voltar à trabalhar; a redatora solitária e amarga que aluga um quarto de hotel na noite de ano novo para não precisar ficar em casa sozinha; a leitora que parou no tempo e lê os jornais de anos atrás de maneira religiosa.

E enquanto conhecemos os personagens também vamos descobrindo a história do próprio jornal em capítulos menores, desde a sua concepção até a decadência. Essa, aliás, óbvia porque se a ideia de um jornal internacional em inglês sediado em Roma já era estranha lá nos anos 50, quando um milionário resolveu bancá-la, fica inviável nos tempos atuais, quando as pessoas trocaram a folha de papel por sites de relacionamento.

A leitora mais fiel do jornal, Ornella de Monterecchi, foi até lá para exigir que não o fechassem. Mas chegou tarde. O porteiro ainda lhe fez a gentileza de deixá-la entrar na sala abandonada. Ele acendeu as luzes fluorescentes, que piscaram, e permitiu que ela permbulasse por lá.
O ambiente estava fantasmagórico: mesas e fios largados, levando a lugar nenhum, impressoras quebradas, cadeiras de escritório tortas. Ornella percorreu com hesitação o tapete imundo e parou no copidesque, ainda cheio de folhas diagramadas manchadas e edições antigas. Aquela sala, a certa altura, continha o mundo inteiro. Agora, só tinha lixo.
O jornal – aquele relatório diário da estupidez e genialidade da espécie – nunca antes deixara de sair. Agora, sumira do mapa.

O trecho acima resume bem o que o livro é. Não tem romance nenhum na “redação do jornal”, aquela imagem do investigador da notícia com seu bloquinho de texto e cigarro na boca. São pessoas se acabando junto com o próprio jornal em que trabalham e, claro, com o jornal de papel no geral. Ninguém pode dizer o que vai acontecer em alguns anos, mas todo mundo sabe que a tecnologia muda tudo. Vai saber o que será do jornal nos próximos anos, e esse mesmo sentimento é geral no livro de Tom Rachman: vai saber o que serão dessas pessoas. Além de ter uma coleção de personagens interessantes e realistas, o livro também é uma boa lembrança de que aqueles que decidem o que você vai ou não saber do mundo são às vezes admiráveis e outras odiosos, às vezes corretos e outras ridículos; mas sempre imperfeitos. Não esqueça disso ao abrir o jornal de manhã.

Livro: Os Imperfeccionistas (The Imperfectionists – 2010)
Autor: Tom Rachman
Editora: Record – 2011

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