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Tirei o paletó, a gravata, desabotoei o colarinho e pus na cabeça um chapéu que tinha comprado em Nova York de manhã. Era um desses chapéus de caça, vermelho, com a pala bem comprida. Eu o tinha visto na vitrine de uma loja de artigos esportivos quando saímos do metrô, logo depois que descobri que havia perdido a porcaria dos floretes e tudo. Só custou um dólar. Usava o chapéu com a pala virada para trás – de um jeito meio ridículo, mas era assim que eu gostava.

Eu tenho um chapéu do Holden Caulfield. É vermelho, uma aba e aqueles dois aquecedores de orelha dos lados. E eu não fui a única pessoa a sair procurando o tal chapéu de caça vermelho por aí, na verdade, encontrei muitas versões diferentes do chapéu do Holden Caulfield na internet que, no fim, tive que decidir qual seria “o meu chapéu do chapéu do Holden Caulfield”.

Para quem não conhece (ainda), Holden Caulfield é o protagonista do livro O apanhador no campo de centeio, de J.D. Salinger. Ele é um adolescente de 17 anos, tem uma família abastada e estuda no internato para rapazes Pencey Prep. A história começa quando Holden precisa voltar para casa após ter tirado notas ruim em quase todas as matérias e ser expulso do colégio.

 

O apanhador no campo de centeio foi o primeiro romance sobre passar da  adolescência para a idade adulta. É engraçado ver pessoas comentando hoje que não tem nada de incrível no romance, que o Holden passa o tempo todo reclamando sem fazer nada, justamente porque antes desse livro de Salinger, não existia uma ‘cultura da adolescência’. Então é anacronismo falar que não existe nada de ‘novo’ no livro, sendo que todas as histórias sobre sair da adolescência só existem por causa do Holden Caulfield. E seu chapéu vermelho, claro, porque ele também é símbolo do medo que o personagem tem em se tonrar um adulto e aceitar que deve aprender a viver num mundo imperfeito (cheio de gente phony).

O chapéu é algo que Holden comprou para si mesmo, marcando a sua individualidade e alienação em relação à sociedade. A visão de Holden sobre os outros e o mundo adulto em geral é extremamente crítica e negativa, ele não acha que existe absolutamente nada de bom e puro no mundo além das crianças, então ele não quer crescer e assumir as responsabilidade de ser parte da sociedade. Com seu chapéu, ele se protege de interações com os outros e, porque é algo que a maioria das pessoas não gosta, mostra também que ele é diferente de todos os outros. A grande contradição é que Holden presta muita atenção no chapéu, ele conta para o leitor todas as vezes em que o está usando e, no momento em que encontra alguém que conhece, ele o tira da cabeça e o esconde no bolso. Isso porque, apesar de se achar acima de tudo o que enxerga de ruim nos outros e querer se alienar disso, Holden também tenta encontrar algum companheirismo nos outros.


Através do chapéu também é possível perceber como Holden cresce durante o romance. No começo da história, o chapéu vermelho serve como uma forma de Holden se conectar com o irmãozinho falecido, Allie, que tinha cabelos ruivos. Com o passar do tempo, ele se passa praticamente dependente do chapéu, como uma muleta. No fim, ele dá o objeto para sua irmãzinha Phoebe, na intenção de protegê-la do mundo adulto, só que ela o devolve porque não precisa disso. Este ato tem um grande efeito em Holden, que acaba por aceitar seu papel no mundo imperfeito e encarar as suas responsabilidades.

É realmente impressionante como, se tirarmos todo o resto do livro, ainda podemos perceber como Holden cresce e se transforma durante a história olhando somente para seu chapéu de caça vermelho.
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