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Quando Manoel de Barros decidiu escrever sua auto-biografia, resolveu chamá-la de Memórias Inventadas e a dividiu em três partes: primeiro, a infância; depois seria a vez da mocidade; e, por fim, a velhice. Porém, ele se viu num impasse: não poderia escrever as partes finais, pois sua vida inteira era só infância.

Para solucionar esse problema, Manoel resolveu escrever suas Segunda e Terceira Infâncias, terminando sua auto-biografia ainda no inicio de sua história, mas consciente de que não existia nada mais importante que isso para contar: “Nada há de mais prestante em nós senão a infância. O mundo começa ali”.

Ele nasceu de Cuiabá, no Beco da Marinha, no dia 19 de Dezembro de 1916. Seu pai, João Venceslau Barros, era um capataz influente na região e construiu uma fazenda no Pantanal para morar com a família. Manoel, ou Nequinho (como era chamado pela família naquela época), cresceu brincando descalço na grama ao redor de sua casa. Essa época de brincadeiras e o contato com o meio rural foi extremamente importante para Manoel, e influenciou sua poesia mais do que qualquer outra experiência de sua vida. Ele aprendeu a se concentrar nas coisas desimportantes, no que era “nada” aos olhos dos outros. Sob seu ponto de vista, essas coisas invisíveis aos outros eram as mais importantes do mundo.

Ali o que eu tinha era ver os movimentos, a atrapalhação das formigas, caramujos, lagartixas. Era o apogeu do chão e do pequeno.

Muitas vezes, Manoel é visto como o poeta pantaneiro, mas sua poesia é muito mais do que uma descrição de currais, terra e bichos; o ponto chave de toda a sua obra está nos olhos do menino. O Pantanal e a fazenda não seriam tão extraordinários sob o olhar acostumado de um adulto, mas Manoel de Barros nos mostra com a sua poesia que, vistos pelos olhos puros e espantados de uma criança, toda e qualquer miudeza se torna grande e especial.

Por viver muitos anos dentro do mato
Moda ave
O menino pegou um olhar de pássaro –
Contraiu visão fontana.
Por forma que ele enxergava as coisas
Por igual
como os pássaros enxergam.

Manoel aprendeu a gostar de palavras quando conheceu os trabalhos do padre Antônio Vieira. Segundo suas próprias palavras, o que o fascinou e o influenciou foi que para Vieira “a frase era mais importante que a verdade, mais importante que a sua própria fé. O que importava era a estética, o alcance plástico. Foi quando percebi que o poeta não tem compromisso com a verdade, mas com a verossimilhança”. Esse descompromisso com a verdade e atenção extrema na plástica também foi muito importante para sua formação como poeta. Manoel trabalha mais a forma da frase que o tema ou lógica, como quando diz “a quinze metros do arco-íris o sol é cheiroso” ou “quero a palavra que sirva na boca dos passarinhos”.

Escreveu seu primeiro poema aos 19 anos, se formou advogado, ingressou no Partido Comunista, casou, teve filhos, publicou trinta livros, ganhou trezes prêmios e passou a cuidar da fazenda de seu pai no Pantanal. Nunca abandonou os momentos e coisas que o fascinaram e moldaram sua maneira de pensar e escrever. Misturando a eterna infância com o prazer pelas palavras, Manoel publicou em 1997 o Livro sobre o nada, onde ele queria fazer brinquedos com as palavras num livro que se sustentasse pelo estilo, e não pelo assunto. Entre poemas e frases, Manoel explica: “Sempre que desejo contar alguma coisa, não faço nada; mas se não desejo contar nada, faço poesia”.

Poesia não é para compreender mas para incorporar
Entender é parede: procure ser árvore.

Ainda que não tenha nenhum compromisso com a verdade, que diga “noventa por cento do que escrevo é invenção. Só dez por cento é mentira” ou “tudo o que não invento é falso”, a obra de Manoel mostra a verdade de sua vida: o nada sob os olhos do menino de pés descalços que cresceu numa fazenda no Pantanal. Ali surgiu o poeta das coisas desimportantes, em pessoa e tema. Quando, em 2007, publicou a terceira parte de Memórias Inventadas, estava com 91 anos, mas a velhice nunca o alcançou. Ainda hoje, ele ainda está vivendo sua infância.

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