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E enquanto isso, a triste verdade era que nem todo mundo podia ser fora do comum, que nem todo mundo podia ser perfeito; se fosse assim, quem sobraria para ser comum? Quem iria desempenhar o papel ingrato de ser comparativamente imperfeito?

De todos os livro que li durante o ano passado, o que mais ficou comigo foi As correções, do escritor americano Jonathan Franzen. Eu li Liberdade porque fiquei sabendo de todo o hype e de como estava sendo chamado de o romance do século, gostei bastante e, por conta disso, resolvi ler o livro anterior do autor. Como disse, eu gostei de Liberdade, acho que é extremamente bem sucedido em criar personagens muito realistas e uma histórias que representa muito bem os nosso tempos (a melhor cena do livro, na minha opinião, é aquela da queda das Torres Gêmeas), mas acho que o livro chega nem aos pés de As correções.

A história é sobre aquilo que Franzen sempre escreve: uma família. Dessa vez são os Lamberts, cujo patriarca é Alfred, um homem extremamente severo casado com Enid, uma mulher conservadora e muito preocupada com as aparências. Os dois tem três filhos: Gary, muito próximo da mãe e quase um inimigo do pai, que não percebe estar reproduzindo em sua própria família, esposa e filhos, tudo o que mais odiava na de seus pais; Chip, o filho intelectual visto com muito orgulho pelo pai e a mãe, mas que não consegue realizar absolutamente nada em sua vida e passa a maior parte do tempo tentando escapar de suas obrigações como filho; e Denise, que carrega o fardo de ser a menininha do papai e tem um péssimo relacionamento com a mãe, além de ser emocionalmente aleijada e incapaz de entrar em acordo com a sua sexualidade.

Por toda a casa ressoava o toque de uma campainha de alarme que só Alfred e Enid conseguiam ouvir claramente. Era o alarme da ansiedade. Era como um daqueles imensos discos de ferro fundido percutidos por um malho elétrico que fazem as crianças saírem das escolas em simulações de incêndio. Àquela altura, já vinha tocando há tantas havia tantas horas que os Lambert não ouviam mais mais a mensagem “sineta tocando” e sim, como qualquer som que persista o suficiente para nos dar o tempo de perceber de que sons é composto (como qualquer palavra que fitemos até ela se definir como uma simples sequência de letras mortas), um malho que feria rapidamente uma superfície metálica ressoante, não um som puro mas uma sequência granular de percussão cercada de uma aura penetrante de sons secundários; tocando havia tantos dias que já se confundia simplesmente com os demais ruídos de fundo, exceto em certas horas da madrugada, quando um dos dois acordava coberto de suor e percebia que uma campainha vinha tocando em suas cabeças até onde a memória alcançava.

Ao longo do livro, conhecemos praticamente toda a vida dos personagens, mas o plot (se é que se pode chamar de plot) se passa nos anos 90 e gira em torno do ‘Último Natal’. Acontece que Alfred está sofrendo de Mal de Parkinson e, por conta disso, Enid quer que todos os filhos se reúnam no Natal, já que este pode ser o último em que terão a chance. Ao redor dessa ideia, Jonathan Franzen vai apresentando os personagens muito lentamente (de verdade, o livro tem quase 600 páginas) e você vai aprendendo a amar e odiar cada um dos Lambert a medida que o autor vai tirando suas máscaras.

Eu não estou brincando quando digo que eles parecem pessoas de verdade, eu já li muito livros mas nenhum deles tinha personagens tão complexos e reais quanto este. Você enxerga seus amigos, seus parentes (especialmente, afinal, é um livro sobre família) e, claro, você se enxerga. E quando você se vê em um dos Lambert, fica com medo e vergonha, porque Franzen é implacável na maneira que trata seus personagens. Ele parece amar e odiar cada um deles, ele faz piada das suas dores sem piedade e, porque você se identifica com aquelas pessoas, a impressão que dá é que ele está tirando sarro de você.

Da última vez que Chip visitara seus pais, levara com ele sua então namorada Ruthie, uma jovem marxista oxigenada do norte da Inglaterra, a qual, depois de cometer uma infinidade de ofensas contra a sensibilidade de sua mãe (acendeu um cigarro dentro de casa, riu alto de uma aquarela sua, desceu para jantar sem sutiã e deixou de experimentar a ‘salada’ de castanhas e ervilhas com cubos de queijo cheddar num molho grosso à base de maionese que a mãe sempre preparava em ocasiões festivas), tinha alfinetado e provocado seu pai até ele declarar que “os pretos” acabariam sendo a ruína do país, que “os pretos” não sabiam o que era trabalho pesado, e que pouco lhe importava o que Ruthie pensasse dele, pois ela era visita na casa dele e no país dele; ao que Chip, que já tinha avisado a Ruthie que os pais dele eram as pessoas mais caretas dos Estados Unidos, sorrira como se dissesse, Está vendo? Exatamente como eu falei. Quando Ruthie o deixou, três semanas mais tarde, comentou que ele era mais parecido com o pai do que pensava.

Os personagens são apresentados de acordo com seus pontos de vistas e os dos outros, criando camadas diferentes para cada um deles:

Alfred Lambert, por exemplo, quando visto pelos dois filhos é um homem terrível e opressor mas, do ponto de vista de Denise, é um pai cuidadoso e honrado. Ao longo do romance, Alfred, sempre extremamente controlador, começa a se ver perdendo este controle para a doença. Não consegue comer sozinho, andar, tomar banho, e aí precisa ser cuidado pela esposa e os filhos, superando na marra a vergonha de ser visto em situações um tanto humilhantes.

A mãe, Enid Lambert, mais preocupada em manter as aparências de família perfeita do que em se esforçar para melhorar seu convívio com o marido os filhos, também vê suas expectativas ruírem junto à doença do marido. Cada vez mais presa naquela realidade, todos os seus sonhos e ambições começam a parecer impossíveis. Como que para se agarrar nessa ilusão, ela fica bastante obcecada com a ideia de juntar todos os Lambert para o “último Natal”.

Gary Lambert, o único dos filhos a casar e construir uma família, tenta se convencer de que não está deprimido, ainda que tenha todos os sintomas da doença. Ao mesmo tempo, de tanto tentar fugir, acaba por reproduzir em sua própria família os conflitos que tanto o marcaram desde a infância. Se torna um homem amargo, autocentrado, isolado dos outros (inclusive dos filhos) e que consegue enxergar a possibilidade de ganhar dinheiro antes de parar e pensar na saúde e na vida de seu pai.

Tinha passado anos cultivando a ideia das Duzentas Melhores Fotos da Família Lambert de Todos os Tempos, como se o projeto fosse um fundo de investimento idealmente equilibrado, relacionando com grande satisfação as imagens que ele julgava ter certeza de incluir entre aquela duzentas. Agora ele se perguntava quem mais, além de si mesmo, ele estaria tentando impressionar com aquelas fotos. Quem ele estava tentando convencer, e do quê? Teve um impulso de queimar suas velhas favoritas. Mas toda sua vida tinha a meta de ser uma correção da vida de seu pai, ele e Caroline haviam concordado havia muito que Alfred tinha depressão clínica, e todo mundo sabia que a depressão clínica tem uma base genética e era substancialmente hereditária, de maneira que Gary não tinha escolha além de continuar resistindo à ANEDONIA, trincando os dentes, esforçando-se ao máximo para se divertir…

Chip Lambert, que tentou viver a vida que seus pais sonharam para ele, perdeu o emprego de professor após ter um caso com uma aluna e se tornou a imagem do fracasso. Sem dinheiro, sem a namorada e sem conseguir terminar o roteiro que está escrevendo, ele foge de todas as responsabilidades e culpa os outros pelos seus erros. O mais curioso é que Chip nos é apresentado no começo da obra como o herói óbvio,mas ele desiste desse papel ao fugir para o Leste Europeu e só voltar no fim do livro.

A caçula da família, Denise Lambert, que no começo me parecia a mais bem ajustada dos Lambert (acho que era porque o segmento sob o ponto de vista dela foi o último) é incapaz de formar qualquer ligação emocional com outra pessoa, sejam homens (que mais pareciam estar na vida dela por conveniência) ou mulheres (por quem ela parece sentir uma atração genuína, mas nunca permite que se aproximem muito). E, ao mesmo tempo em que é a única dos filhos a aceitar desde o começo – mesmo a contra-gosto – a responsabilidade de cuidar dos pais, surpreende a si mesma ao se descobrir uma pessoa sádica e cruel.

Denise já estava vendo que ia ser a única dos filhos presente ao jantar de Natal de Saint Jude, a única de prontidão durante as semanas, os meses e os anos que se seguiriam. Seus pais eram educados demais para pedir-lhes que viesse morar com eles, mas sabia que era isso que desejavam. Assim que inscreveu o pai na Fase II da testagem do CorrecTor e ofereceu-se para hospedá-los, Enid tinha cessado unilateralmente as hostilidades contra ela. Nunca mais mencionara sua amiga adúltera Norma Greene. Nunca mais perguntara por que ela tinha “largado” seu emprego no Generator. Enid estava com problemas, sua única filha se oferecera para ajudar, não podia mais dar-se ao luxo de fazer-lhe restrições. E agora tinha chegado o momento, na história que Denise contava para si mesma sobre si mesma, em que a chef de cozinha cortava a própria carne e alimentava os pais com ela.

Na falta de uma história melhor, quase acreditou naquela. O único problema era que não se reconhecia em sua narrativa.

Não dá para dizer se As correções está mais para um romance realista ou uma sátira, porque Franzen consegue transitar e pular de um estilo para o outro numa mesma frase. O livro é doloroso ao mesmo tempo em que te faz rir de situações exageradas e tiradas espertinhas que o autor não se cansa de colocar no meio do drama. Além disso, não dá para esquecer que (assim como Liberdade foi para a primeira década do século XXI), As correções é um comentário social sobre a década de 90 (suas crenças, políticas, costumes, ética, etc.), apesar disso o livro não é maneira alguma datado, porque o que você encontra ali são pessoas. O seu pai, a sua mãe, os seus irmãos, você. Eu, sinceramente, consegui me ver em cada um dos personagens (especialmente nos três filhos) e, embora uma das funções mais bonitas da literatura seja dizer para cada um que ele não está só, muitas vezes olhar no espelho doloroso, sarcástico e extremamente realista escrito pelo Jonathan Franzen não é muito fácil ou confortável.

Livro: As correções (The corrections – 2001)
Autor: Jonathan Franzen
Editora: Companhia das Letras -2011

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