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“Em todo caso, só estou dizendo que houve uma época… talvez tenha sido um dia, talvez alguns dias, eu já não me lembro… em que tudo parecia estar dando certo. E, obviamente, era hora de ir fazer uma cagada geral.”

Slam foi o terceiro Nick Hornby que li (o primeiro foi Juliet, nua e crua e o segundo foi o mais famoso dele, Alta fidelidade) e, como os outros, o livro é muito divertido e engraçado (eu ria sozinha toda hora lendo, e é difícil um livro me fazer rir de verdade) e a história bastante simples: Sam, um garoto skatista de 16 anos, engravida a namorada.

Ele toma um slam – um tombo, na gíria do skate – e vê sua vida inteira mudar. Aliás, só de pensar nesta possibilidade, a vida dele começa a se transformar. Quando tudo se concretiza, ele precisa crescer e abraçar suas novas responsabilidades. Os outros livros do Hornby que tinha lido, aliás, falavam de homens que ainda eram meninos; neste é o contrário: o menino precisa virar um homem.

Como tudo o que Hornby escreve, o livro está recheado de elementos da cultura pop. Fala de música, videogame, programas de televisão, mas o melhor momento nesse quesito é a maravilhosa e assustadoramente certeira comparação entre bebês e iPods.

Lá na escola havia duas mães adolescentes, que agiam como se um bebê fosse um iPod, um celular novo, ou algo do tipo, uma espécie de aparelho que elas queriam exibir. Existem muitas diferenças entre um bebê e um iPod. E uma das maiores é que ninguém assalta a gente por causa de um bebê. Não é preciso guardar o bebê no bolso quando a gente pega um ônibus tarde da noite. E, pensando bem, isso deve significar algo, porque as pessoas assaltam a gente em busca de qualquer coisa que valha a pena ter. Ou seja, ter um bebê não deve valer a pena.

Eu também ri bastante dos nomes que surgiram quando foi decidido que o filho seria batizado com o do artista da música que estivesse tocando no momento de seu nascimento (“Arctic Monkey Jones” e “Sex Pistol Jones”). E aquela história das conversas imaginárias com Tony Hawk – Sam tem um poster do skatista na parede do seu quarto e mantém constantes diálogos com ele – me fez pensar o que aconteceria com o meu resto de sanidade mental se eu começasse a pedir conselhos para a Alice e a Lagarta pregadas na parede do meu quarto. É, acho que não seria a melhor das idéias…

Devo dizer que o fim do livro me decepcionou um pouco. Aquela história de fechar s pontas soltas do livro com perguntas em tópicos foi um pouco preguiçoso. Mas, ao contrário de alguns críticos, eu gostei bastante das ‘viagens ao futuro’ – no meio de sua crise, Sam faz visitas ao seu ‘eu do futuro’ e tem visões de como será sua vida. Ok, no começo eu fiquei me perguntando o que era aquilo e achei meio deslocado, mas no fim (mais precisamente no último capítulo) eu senti que não existia outra maneira de fechar aquela história.

Pedi para ver Roof antes de ir para casa. Ele estava dormindo sono solto, com as mãos perto da boca, enquanto fazia baixinho aqueles barulhos que pareciam roncos. Nós três ficamos olhando para ele durante alguns instantes. E eu pensei: vamos congelar essa imagem, com todo mundo parado. Não teríamos problemas durante os quinze anos seguintes se conseguíssemos ficar ali calados, vendo um garoto crescer.

Como o Sam, todo mundo toma algum slam gigante em algum ponto da vida, e acho que na maioria das vezes lidamos do mesmo jeito que ele. Eu também tenho impulsos que me fazem querer jogar o celular no mar para adiar notícias ruins, também fico adiando tomar decisões, prefiro fingir que não tem nada de errado, fico me lamentando de não ter dado valor pra quando a vida não era espetacular – mas era simples e era boa. De qualquer forma, a gente toma o slam quando a gente menos espera precisa assumir todas as responsabilidades querendo ou não. E, depois, tem que lidar com isso senão da maneira mais perfeita e certa, do jeito que der.

Livro: Slam (2007)
Autor: Nick Hornby
Editora: Rocco – 2008

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