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“não foi culpa do padre, nem da igreja, nem de deus. foi só o triste acaso de sermos miseráveis num país de miséria que não esperava de nós mais do que o brio e o sacrifício mudo.”

Algumas pessoas tem a ideia errada de que literatura serve para divertir. Pode ser que alguns tipos de livro tenham mesmo essa função, mas isso não é literatura: isso é entretenimento. A literatura de verdade serve para (como tudo que pode ser chamado de “arte”) transformar em algo percebível pelos sentidos aquilo que não tem forma, cor ou cheiro e vive dentro do universo interior de cada um. Às vezes isso pode ser divertido mas, em outras, pode ser depressivo e te atingir como um soco no estômago.

E fui atingida várias vezes em todas as partes do corpo enquanto lia a máquina de fazer espanhóis, do valter hugo mãe. Confesso que demorei para terminar de ler o livro simplesmente porque era, muitas vezes, pesado demais para determinados momentos. Quando finalmente cheguei ao fim, as últimas palavras não poderiam ter sido mais certeiras: “angústia, sinto angústia”.

A obra do carismático escritor português conta os últimos momentos da vida de um silva qualquer. Um barbeiro que perdeu sua esposa, laura, e foi colocado por seus filhos numa casa de repouso de nome infâme, “feliz idade”, onde ele irá esperar pela morte junto com outros idosos.

com a morte, também o amor devia acabar. ato contínuo, o nosso coração devia esvaziar-se de qualquer sentimento que até ali nutrira pela pessoa que deixou de existir. pensamos, existe ainda, está dentro de nós, ilusão que criamos para que se torne todavia mais humilhante a perda e para que nos abata de uma vez por todas com piedade. e não é compreensível que assim aconteça. com a morte, tudo o que respeita a quem morreu devia ser erradicado, para que aos vivos o fardo não se torne desumano. esse é o limite, a desumanidade de se perder quem não se pode perder. foi como se me dissessem, senhor silva, vamos levar-lhes os braços e as pernas, vamos levar-lhes os olhos e perderá a voz, talvez lhe deixemos os pulmões, mas teremos de levar o coração, e lamentamos muito, mas não lhe será permitida qualquer felicidade de agora em diante.

Esta reflexão sobre a morte foi o primeiro (de muitos) momento do romance que me fez chorar. E aí eu entendi o porquê do autor ter escolhido abolir as maiúsculas de seu texto (deste em especial, porque só agora comecei a ler outros livros do hugo mãe): num mundo onde você perde quem não se pode perder, não existem espaços para grandezas, nem mesmo nas letras. Uma escolha estética, assim como toda a linguagem do livro, que casa perfeitamente com tudo o que está sendo relatado na obra. E são muitos os temas: a “feliz idade” do silva é comparada com a história de portugal, desde o salazarismo, a miséria, até o complexo de inferioridade que faz com que o país seja mesmo uma máquina de produzir estrangeiros.

Refletindo sobre e enxergando um mundo triste e sem grandezas, o silva acaba se aproximando dos outros moradores do asilo. Seus novos companheiros acabam por ajudá-lo a lidar com o luto da morte de laura e de sua própria vida. Ao mesmo tempo, silva continua vivendo dentro da morte. Está num asilo, afinal, onde todos foram esquecidos, vivem sozinhos, e esperam pela própria morte. Entre os outros idosos do feliz idade está o esteves sem metafísica, o homem que inspirou o personagem de Fernando Pessoa, e ele representa, para silva, um pouco da mágica que seu mundo perdeu. Ao mesmo tempo, é só um simples velho homem que, como todos os outros, também vem a morrer, levando consigo a fantasia de sua existência.

quem acreditaria em mim agora quando eu dissesse que ali viveu verdadeiramente o esteves sem metafísica da tabacaria do álvaro de campos do fernando pessoa. que não acharia que eu enlouquecera, se nenhum livro comprovara a existência de tal homem. como se provaria isso que para nós estava provado pela espontaneidade e vivacidade de seu discurso. como se perderiam os pormenores, as passagens mínimas que compunham a história bem contada daquele episódio com o poeta. ficávamos pobres de fantasia, perdia-se o elemento da efabulação maior do feliz idade. a  partir de então seríamos ainda mais velhos a entrar na senilidade, uns babões sem interesse nem valor especial. apenas um amontoado de ossos moles que ia aquentando o tempo sem nenhuma glória particular. o doutor bernardo pôs a mão no meu ombro e sentei-me. cairia das pernas se não o fizesse.

Questionador, pesado, depressivo, triste, doce, sincero, grosseiro e direto na minha cara. A obra do valter hugo mãe me proporcionou uma experiência completa durante todas as semanas em que lutei contra ela (que se mostrou mesmo um desafio) e eu não trocaria isso por diversão alguma.

Livro: a máquina de fazer espanhóis (2010)
Autor: valter hugo mãe
Editora: Cosac Naify – 2011

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