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“Sou incapaz mesmo, não gosto de “gentes maravilhosas”, não gosto de gente, para abreviar minhas preferências”

Uma carta expondo sentimentos feridos nunca ditos antes não é das idéias mais originais, mas com certeza ninguém a imagina da mesma forma que o escritor de Pindorama, interior de São Paulo, Raduan Nassar. Em seu conto O ventre seco, publicado em 1997 no livro Menina a caminho (mas escrito em 1970, época de repressão política e cultural), Nassar cria um cenário cotidiano para servir como crítica e discussão de algo maior. O alvo aqui é a chamada intelectualidade da época, ou melhor, a “gentes maravilhosas” como o narrador mesmo as classifica. “Não gosto de gente”, ele limita ainda mais suas preferências.

11. Não tente mais me contaminar com a tua febre, me inserir no teu contexto, me pregar tuas certezas, tuas convicções e outros redemoinhos virulentos que se agitam a cabeça. Pouco se me dá, Paula, se mudam a mão de trânsito, as pedras do calçamento ou o nome da minha rua, afinal, já cheguei a um acordo perfeito com o mundo: em troca do seu barulho, dou-lhe o meu silêncio.

(Raduan Nassar)

Separando seus argumentos e organizando-os em tópicos numerados, o narrador fala de manipulação, obscurantismo, proselitismo, feminismo, liberdade, anseios e reivindicações da juventude engajada, prepotência da classe intelectual, tudo em seu monólogo conjugal com Paula, sua ex-namorada.

Quero antes lembrar o que minha mãe te dizia quando você, ao cruzar com ela, e “só para tirar um sarro”, perguntava maliciosamente por mim, te sugerindo eu agora a mesma prudência, se acaso teus amigos quiserem saber a meu respeito. Você pode dispensar “a ridícula solenidade da velha”, mas não dispense o seu irreprensível comedimento, responda como ela invariavelmente te respondia: “não conheço esse senhor”.

(Raduan Nassar)

Além da crítica a um contexto maior, O ventre seco também é emblemático por, de certa forma, representar a própria carreira do autor: Raduan Nassar, apesar da aclamação da crítica, publicou somente dois romances e mais um livro de contos antes de decidir trocar a escrita pela criação de galinhas. Seu silêncio literário já dura 25 anos e não tem data para acabar. Nassar simplesmente cansou do mundo intelectual do qual fez parte e, assim como seu narrador em O ventre seco, terminou o relacionamento no que ele chama de “acordo perfeito com o mundo: em troca de seu barulho, dou-lhe meu silêncio”.

O pedido feito pelo narrador à sua namorada no final do conto parece ser uma súplica do próprio autor para todo o mundo da literatura: se alguém perguntar por ele, que respondam “não conheço esse senhor”.

Conto: O ventre seco
Livro: Menina a caminho (1997)
Autor: Raduan Nassar
Editora: Companhia das Letras – 1997

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