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Era uma vez um urso triste e completamente sozinho. Ele vivia numa jaula, e se lembrava de tudo. Fim.

Você está disposto a aceitar a ideia de que um ursinho de pelúcia pode ganhar vida, falar, pensar, sentir, comer e fazer cocô? Se a resposta foi sim, quando tiver a chance, leia Winkie do escritor americano Clifford Chase.

Quando listei os livros favoritos que li no ano passado, este ficou em segundo lugar, mas talvez ficasse em primeiro se o principal quesito fosse a originalidade e ousadia.

Uma vez, Winkie foi Marie e era a ursinha de Ruth. Depois, ganhou o novo nome quando foi dado de presente ao filho dela, Cliff. Em sua vida de pelúcia, ele amou seus donos de maneira pura e devota no maior estilo Toy Story. Só que, ao contrário dos brinquedos da Pixar, quando se viu esquecido no topo de uma prateleira, Winkie decide que não vai mais ser de ninguém. Então ele pula da janela e descobre a vida não só em si mesmo, mas também nos outros e nas coisas ao seu redor. Também acaba por criar vida, ao se tornar mãe/pai (porque Winkie não é menino nem menina) de Bebê Winkie – uma espécie de divindade em forma de ursinha fofa que fala só por meio de citações.

Acontece que, durante sua jornada, Winkie acaba sendo confundido com um terrorista e é preso pelo governo dos EUA, acusado de 9.678 crimes diferentes, entre eles: terrorismo, conspiração, traição, ensinar a teoria da evolução, bruxaria, corromper a juventude de Athenas, etc.

O julgamento se torna um verdadeiro circo – algo típico de uma sociedade do espetáculo -, e o ursinho acaba ganhando fama e sua própria horda de lovers (Free Winkie!) e haters (Kill Winkie!). Entre as testemunhas chamadas para depor está o próprio autor do livro, Clifford Chase, que se insere na história como testemunha de defesa do ursinho. Isso porque o seu livro foi inspirado num Winkie de verdade, que foi brinquedo de sua mãe Ruth, quando era criança e, depois, dele mesmo.

“Ele era um urso estranho, mas era um urso bom, e ainda acredito nisso. Não importa o que os outros digam. E é por isso que me apresentei para depor.”

(Clifford Chase, autor e personagem)

Confesso que, quando comecei a ler este livro, fiquei com medo de me deprimir demais. Porque a ideia de um ursinho de pelúcia ser maltratado é triste demais para mim, mas Winkie é bizarro e sarcástico demais para isso. O autor faz questão de manter o humor negro nas alturas durante toda história, impedindo que as coisas caiam num melodrama barato.

Winkie bem que pode ser considerado um encontro de O Processo, do Kafka, com a trilogia já citada, Toy Story . O livro é uma tiração de sarro da paranoia em que mergulhou a sociedade americana depois dos ataques terroristas e  uma defesa dos direitos humanos, mas também uma sensível e tocante fábula sobre a perda da infância.  A conciliação das duas interpretações acontece, e é eficiente, por conta do ponto de vista escolhido pelo autor: Winkie (o personagem) foi inventado para ser essência da infância, mas Clifford Chase escolheu contar a história sem esquecer as dores e as tristezas do que viveu. Então, quando ele revisita a sua própria infância (e a de sua mãe), faz o que Bruno Schulz propôs na frase usada como epígrafe do livro: reescreve a infância sob os olhos vividos de um adulto.

“Os livros que lemos na infância já não existem mais; eles foram carregados pelo vento, deixando para trás apenas esqueletos nus. Quem quer que ainda cultive a lembrança e a essência da infância deveria reescrevê-los tal como os vivenciou.”

(Bruno Schulz)

Mas o grande mérito do livro é, com certeza, o personagem título. Não importa o quão inteligentes e sagazes foram as ideias de Clifford Chase, elas não seriam absolutamente nada se a história não fosse sobre e guiada por esse brilhante personagem que é o próprio Winkie. Poucas vezes vi um personagem ser tão bem desenvolvido em tão pouco tempo. É como se, logo nas primeiras linhas, Winkie já estivesse ali prontinho na sua frente, completo e complexo. Você entende quem ele é e o que ele sente logo de cara. Você se apaixona logo de cara por essa criaturazinha estranha, esse ursinho carinhoso bizarro e melancólico que questiona sua vida, alma e lugar no mundo.

Dentro da cabana, deitado num velho colchão tão surrado quanto ele próprio, estava o ursinho, os olhos bem abertos, pensando. Mas ele não fora acordado pelas autoridades. Na verdade, não fazia a menor ideia de que estavam ali. Não conseguia dormir de tanta tristeza.

O passado, o passado. Como ele nos persegue, pensou Winkie. Como mexe conosco sem nem mesmo tocar. E o que significava isso – lembrar e sentir? Qual o propósito de sentir tudo de novo?

(Clifford Chase)

O livro só tão bem sucedido em tudo o que se propõe porque o autor torna impossível para nós, leitores, não nos envolvermos e amarmos Winkie. Torcemos por ele do começo até o fim, mesmo sabendo que se nós, grandes humanos evoluídos, não temos a menor chance contra o mundo acusador, muito menor será a de um ursinho de pelúcia.

Livro: Winkie (Idem – 2006)
Autor: Clifford Chase
Editora: Bertrand Brasil – 2011

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