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Há exatamente 147 anos, Alice resolveu seguir o Coelho Branco e acabou caindo na sua toca e indo parar no País das Maravilhas. Hoje também completam-se 160 anos do nascimento de Alice Liddell, a menina que inspirou Lewis Carroll a criar a personagens e seu bizarro e fantástico mundo.

Foi com a intenção de entreter as três irmãs Liddell durante um passeio de barco, que o professor de matemática Charles Ludwig Dodgson inventou a história da menina curiosa que caí dentro da toca de um coelho falante e atrasado. Colocando a irmã do meio, Alice, no papel principal, Dodgson virou Lewis Carroll e escreveu um livro que se tornaria um ícone cultural vivo e relevante mesmo depois de quase 150 anos da sua primeira publicação.

Se na época em que  foi publicado, os editores não souberam se classificavam o livro como obra direcionada para crianças ou adultos, hoje, mais de um século depois, o dilema ainda persiste. Carroll soube criar uma história em que, numa primeira e ingênua leitura, as fantasias parecem contos de fadas, mas, quando vistas com mais cuidado, podem proporcionar uma análise aprofundada envolvendo inúmeras referências (históricas, literárias, científicas, etc.), e até interpretações psicanalíticas completamente alegóricas baseadas na suposição de que cada passagem do livro foi escrita com a intenção de simbolizar algo maior.

Praticamente todas as frases do País das Maravilhas e sua continuação, Através do espelho e o que Alice encontrou lá, foram interpretadas e são muitas as explicações encontradas pelos estudiosos, mas também é uma opinião comum a todos a de que nunca será possível determinar com certeza o que Carroll quis dizer em cada passagem. Depois da Bíblia e de toda a obra de Shakespeare, as duas aventuras de Alice são as obras mais citadas de toda a literatura ocidental.

Hoje em dia, é muito difícil encontrar alguém que não saiba quem é Alice, ou que ela seguiu o Coelho Branco (que está sempre atrasado), caiu num buraco (que não segue as leis da gravidade) e foi parar num lugar cheio de criaturas malucas dominadas por uma Rainha que, no primeiro infortúnio, manda cortar a cabeça. Algumas pessoas devem saber, também, que essa história foi inspirada não em um, mas em dois livros. Mas poucas pessoas devem ter ideia da importância da obra para a literatura ocidental. Menos ainda deve ser o número daquelas que foram procurar as variadas explicações possíveis para o sorriso do Gato de Cheshire e descobriram que o Chapeleiro pode não ser realmente louco, mas sofrer de envenenamento de mercúrio.

Mesmo depois de ter lido as duas Alices inúmeras vezes, posso dizer que sempre encontro algo novo cada vez que pego os livros nas mãos. São histórias inesgotáveis. Cada uma de suas frases abre um caminho diferente, cada um de seus personagens se mostra interessante e fascinante. São quase 150 anos e, mesmo assim, os livros tem muito mais perguntas que respostas. Até aquele famoso enigma do Chapeleiro, “Por que um corvo se parece com uma escrivaninha?”, a adivinha mais óbvia que Carroll nos deu. Mesmo esta, continua sem resposta. Talvez esse seja o maior trunfo da obra, uma capacidade de criar múltiplas interpretações e considerar cada uma delas certas e erradas ao mesmo tempo. É por isso que estes livros são importantes, únicos. Nem mesmo o próprio Carroll foi capaz de repetir o feito no resto de sua carreira como escritor.

Quando inventada por Lewis Carroll em 1865, Alice foi para debaixo da terra simplesmente para entreter três garotinhas. Depois, ela chegou ao País das Maravilhas, encantando desde crianças até intelectuais, e, mais tarde, maravilhou o mundo novamente ao atravessar o espelho. Desde então, sob os olhos de outros artistas em obras que funcionam como respostas às diferentes interpretações possíveis da história original, Alice foi entendida como uma fábula sombria, um sonho Freudiano, uma crítica à sociedade inglesa vitoriana, uma alucinação por efeitos de drogas e até mesmo uma inocente fantasia infantil.Pode-se dizer que todas essas visões estão, ao mesmo tempo, corretas e erradas, o que é completamente possível (e impossível) no mundo nonsense inventado por Carroll. Fazendo ou não sentido, ou fazendo sentido ao não fazer sentido, o aniversário da aventura de Alice é um convite para nós seguirmos seu exemplo e pularmos lá dentro da toca do Coelho Branco também, à procura de todas as maravilhas criadas pelo autor.

O biógrafo Morton N. Cohen escreveu que descrever o talento de Lewis Carroll como “excepcional” seria insuficiente, e isso é um motivos mais claros do porquê de Alice estar, ainda hoje, tão viva e relevante quanto na época em que foi criada: não é uma questão de imaginação ou de criatividade, mas de magia.

Anexos

4 de maio também o aniversário da Alice (personagem). No capítulo do Chá, em País das Maravilhas, ela diz para o Chapeleiro que estão no dia 4 de maio; o livro seguinte se passa no dia 4 de novembro e, no capítulo do Humpty-Dumpty, ela diz que tem exatamente sete anos e meio. Isso quer dizer que a Alice imaginária faz aniversário no mesmo dia que a Alice real, ou seja: hoje.

Imagino que ela ia preferir que lhe fossem desejados 364 bons desaniversários, mas preciso aproveitar a data especial: Feliz aniversário, Alice! Continue sonhando!

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