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“A pausa faz você achar que a música vai terminar. E aí, quando a música na verdade não termina, você fica aliviado. Mas depois a música termina mesmo, porque toda música termina, é claro, e DESSA. VEZ. O. FIM. É. PRA. VALER.

Se a tecnologia é culpada de uma coisa, com certeza é de dar espaço para que mais vozes sejam ouvidas. Isso pode ser bom ou ruim: no caso de diversidade de opiniões, é ótimo; mas para a indústria do entretenimento, especialmente a musical, a tecnologia muitas vezes faz o papel de vilã. Quem é que compra cds hoje em dia? (eu compro, mas é porque eu sou uma daquelas pessoas estranhas que ainda se apegam ao objeto material). Talvez seja por isso que Jennifer Egan escolheu focar em personagens envolvidos no meio musical para contar uma história sobre a passagem do tempo num mundo cada vez mais tecnológico, em seu livro A visita cruel do tempo.

São, ao todo, treze capítulos que poderiam também ser chamados de contos. Cada um deles não só tem seu próprio protagonista, como também a sua própria linguagem, tom e até mesmo estilo de narrativa. No final, as pequenas histórias formam um todo com um tema único – o tempo -, da mesma forma que canções distintas se juntam lado-a-lado para criar um álbum (os capítulos são até dividos em “Lado A” e “Labo B”). Essa era a intenção da autora e, de certa forma, foi uma maneira bastante eficaz de representar não só a ligação com a música, mas também a variedade de informações, fontes e opiniões que caracteriza o nosso mundo hoje. Quer dizer, a internet transformou o mundo porque agora qualquer um pode criar um espaço para falar o que quiser (não é o que estamos fazendo aqui?). Talvez, o retrato mais fiel da nossa realidade só possa mesmo ser feito através de pequenos contos sobre várias pessoas, ao invés de uma única enorme história sobre um personagem só.

Bennie Salazar, famoso executivo da indústria musical, e sua assistente Sasha são os dois personagens que mais se destacam na obra. Isso porque todos os outros, de alguma forma, estão ligados à eles. Jennifer Egan disse que começou a escrever esse livro sem planejá-lo como um romance, só queria criar uma história de uma mulher (Sasha) que sofre de cleptomania e acaba roubando uma carteira num banheiro feminino de um hotel. Mas, no meio do conto, ela citou o ex-chefe da personagem, um excêntrico produtor musical que usava inseticida como desodorante e colocava flocos de ouro no café. Depois de terminar a história de Sasha, ela ficou interessada em descobrir quem era esse personagem e aí escreveu outro conto. Neste, o tal chefe estranho é o protagonista e, num determinado momento, comenta que fez parte de uma banda quando adolescente. O texto seguinte se passa em plena cena punk dos anos 70, e é sob o ponto de vista de Rhea, uma das antigas colegas de Bennie. E assim por diante.

Todos os contos são, de alguma maneira, sobre o mesmo tema: o tempo. Os diferentes protagonistas são colocados no centro da história justamente naqueles momentos de suas vida em que se dão conta de que o tempo passou e eles cresceram, envelheceram, e suas vidas não são mais o que foram um dia (para o bem ou para o mal). Esse elemento comum faz do livro uma obra bastante coesa mas também um pouco irregular, porque alguns dos capítulos parecem um pouco deslocados e desinteressantes quando comparados com outros.

Todas as minhas perguntas soam erradas: como foi que você ficou tão velho? Foi tudo de uma vez, em um dia só, ou você foi se apagando aos poucos? Quando parou de dar festas? Todo mundo envelheceu também ou foi só você? Os outros ainda estão lá, escondidos entre as palmeiras ou prendendo a respiração embaixo d’água? Quando foi a última vez em que você nadou na piscina? Seus ossos estão doendo? Você sabia que ia acontecer e escondeu que sabia, ou isso o pegou por trás, de emboscada?

(Jennifer Egan)

No entanto, é a diversidade na narrativa que dá a graça. Todas histórias trazem algo diferente: algumas são mais convencionais que outras (no sétimo, De A a B, somos apresentados rapidamente ao jornalista Jules, só para depois lermos uma reportagem escrita por ele, que compõe o capítulo nove); algumas são tragicamente engraçados (como o terceiro, Não estou nem aí, ou o sexto, Xis-Zero), enquanto outros são só trágicos (como o lindíssimo décimo capítulo, Fora do corpo, que usa uma rara narrativa em segunda pessoa de maneira extremamente competente e comovente); alguns se passam na década de setenta, enquanto outros vão até um futuro próximo, talvez 2020. Este, aliás, é cenário para o mais original de todos os contos do livro: As grandes pausas do rock and roll, por Alison Blake.

Esse capítulo é inteiro em slides e, a princípio, não estava incluído no livro porque a autora estava com dificuldades escrever sem deixá-lo com uma cara empresarial. Ela resolveu o problema escolhendo o ponto de vista de Alison, uma menina de 12 anos, e fazendo dos slides um diário sobre a vida familiar da garota. Ainda bem que, no fim, o capítulo foi incluído, porque é a parte mais inteligente, original e interessante de toda a obra. São setenta páginas feitas no Power Point, onde a pequena Alison conta como é que ela, sua mãe e seu pai lidam com seu irmão mais novo, Lincoln, que tem Síndrome de Asperger e é obcecado com as pausas em canções de rock. Usar slides ao invés de texto corrido pode parecer pretensioso e desnecessário, mas foi só por ter escolhido esse formato que a autora conseguiu mostrar aquilo que é o tema do capítulo em si: o tempo e a pausa.

Além do mais, é um grande mérito que ela também tenha sido capaz de fazer esse capítulo ser muito mais que uma piscada para o leitor dizendo “olha como eu sou inteligente e ousada!”, mas uma história extremamente comovente sobre uma família extremamente amorosa e unida, mas com dificuldades de se comunicar e resolver seus problemas do dia a dia. É tudo isso que eu já comentei: inteligente, interessante e original; mas sem esquecer onde está o coração da história – aquilo que nos faz se importar e sentir compaixão pelos personagens.

Colocado em penúltimo lugar entre todos os contos da obra, essa história ainda parece servir como uma pausa entre as outras narrativas do livro. Aquela pausa que a própria autora descreve ao falar de música: nos faz pensar que a obra está acabando, mas aí  ela não acaba de verdade e nos sentimos aliviados, só no próximo capítulo ela acabar de vez. Porque tudo tem que acabar.

Jennifer Egan queria escrever um romance contemporâneo sobre o tempo e, para isso,  usou diferentes vozes e estilos. O resultado é um conjunto de histórias que se conectam não só pelas relações de seus personagens, mas também pelo sentimento geral de que o tempo é cruel e, pior, passa praticamente despercebido. São só em alguns momentos da nossa vida que paramos para perceber como estamos mais velhos, crescidos, vividos e que aquilo que já foi não volta mais. As mudanças são irreversíveis.

Livro: A visita cruel do tempo (The visit from the goon squad – 2011)

Autor: Jennifer Egan

Editora: Intrínseca – 2012

Anexos

O blog Ready When You Are, C.B. fez um post muito legal e curioso colocando todos capítulos do livro em órdem cronológica e criando mapas enormes apontando todas as ligações entre os personagens.

Outro blog, o The Feminist Texican (Reads) escreveu sobre o livro usando slides. Ficou bem bacana!

Jennifer Egan participou do Authors@Google e toda a entrevista foi legendada pela editora Intrínseca e colocada online (ela também é uma das convidadas da flip deste ano!).

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